A música da esfera extraterrestre

Cintilante gravação da Oitava Sinfonia de Mahler, com a Royal Concertgebouw Orchestra de Amsterdã, solistas e coros

Filosofia posta em música, a Oitava Sinfonia do compositor art nouveau Gustav Mahler (1860-1911) volta a aparecer em nova e cintilante gravação assinada pelo maestro Riccardo Chailly (CD duplo do selo Decca, importado). Como requer essa obra apelidada de Sinfonia dos Mil Executantes, esse recente registro reúne forças poderosas: a suntuosa Royal Concertgebouw Orchestra de Amsterdã, oito excelentes cantores solistas, dois tocantes coros infantis, dois afinados e imponentes coros mistos, além de órgão, a fim de concretizar esse que é um dos mais monumentais e impactantes afrescos sonoros da produção da chamada música clássica do Ocidente.

A Sinfonia n# 8, em mi bemol maior foi escrita por Mahler em tempo recorde, durante as suas férias de verão, em 1906. Com apenas dois movimentos, em vez dos quatro habituais, ela é toda cantada.

Em sua primeira parte, o compositor empregou um velho texto sacro medieval, o Veni, creator spiritus (Vem, criador do espírito) atribuído ao monge sábio Hrabanus Maurus, do século 9. Para a segunda parte, o artista providenciou a musicalização da cena final do Segundo Fausto, de Goethe, considerado um dos mais belos textos da literatura universal.

Estreada em Munique, em 1910, ela foi responsável por um dos únicos verdadeiros sucessos da carreira do autor. Para a Oitava Sinfonia parece convergir toda a história da música, graças ao emprego de múltiplos estilos e formas. Longe de soar como uma banal colcha de retalhos, ela se apresenta aos nossos ouvidos como uma súmula extraordinariamente criativa e orgânica, como um todo a um só tempo lógico e surpreendente. Construída a partir de materiais disparatados, ela consegue nos passar a impressão de ser um universo genialmente arquitetado que, simultaneamente, aponta para o passado e o futuro da própria linguagem musical.

Essa sinfonia é obra metafísica que pretende comunicar uma mensagem ao público. Mesclando misticismo, hedonismo e panteísmo, ela trata de “provar” que a grande força geradora da vida é mesmo o amor, o espiritual e o erótico. Assim, seu “assunto” é simultaneamente religioso e profano, referindo-se aos prazeres desta vida e, também, da necessidade de se acreditar na transcendência. Sem entrar em detalhes, foi possível conferir que esta gravação contém uma das leituras mais flamejantes já ouvidas dessa obra que passa a impressão de ser música proveniente de outras esferas, para além da terrestre.

Esta execução convence tanto na consecução das gigantescas massas quanto na realização das mínimas filigranas musicais. Ela merece ser conhecida. Isso, ainda que ocupe dois CDS (o primeiro deles com apenas 24’36 de duração).


  • Publicação: Jornal da Tarde (São Paulo / SP – Brasil)
  • Data:Sexta-feira, 08 de junho de 2001
  • Título: A música da esfera extraterrestre

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