Um casamento incomum que deu certo

No CD ‘Piano Spiritual’, de Dominique Fauchard, o repertório dos cultos religiosos dos negros americanos se transforma em miniaturas pianísticas

 Piano Spirituals, disco do francês Dominique Fauchard, representa bem o casamento incomum que deu certo. É que esse jovem artista teve a ideia aparentemente louca de transformar obras vocais, destinadas a voz solista e coro, em miniaturas pianísticas. Não se pode negar que boa parte da expressividade impactante dos originais se perdeu. Em contrapartida, ganhou-se todo um novo e muito transparente repertório para piano, concretizado através de peças carregadas de conotações que enredam o coração e a mente.

Como se sabe, os “negros spiritual” nasceram nas miseráveis comunidades negras do Sul dos Estados Unidos. Primeiro trazidos da África como escravos, depois libertados e colocados à margem da sociedade, os negros encontraram na religião uma forte forma de consolo. Seus cultos, aliando lições do protestantismo branco a velhos rituais inspirados nos de origem africana, sempre foram marcados pela presença de uma música forte, bastante original.

Com melodias envolventes e refrões facilmente memorizáveis, essa música que conta com textos livremente adaptados da Bíblia não apenas empolgava os fiéis presentes ao culto como também o público mais amplo que passou a conhecê-la. Isso porque o “spiritual” mostra, a um só tempo, o sofrimento de um povo e o seu desejo de salvação – isso, através de uma linguagem musical coerente e nova, repleta de invenção.

No passado, os cantores negros que tiveram acesso às salas de concerto dos brancos – Paul Robinson e Marian Anderson, por exemplo – costumavam incluir “spirituals” em seus recitais de canções, tendência seguida ainda hoje por vozes do nível de uma Barbara Hendricks. E até mesmo grandes espetáculos, como o de Katheleen Battle e Jessye Norman comandados por James Levine diante de coro e sinfônica tematizaram o gênero.

O trabalho do pianista Dominique Fauchard é, se comparado ao das cantoras líricas, minimalista. Com o seu piano cantante, ele recria as poderosas melodias, harmonizando-as com extraordinário refinamento e dando a tudo o tom compassado daquele rítmico que está na base do “gospel” e até mesmo do jazz e do rock. E, ao menos aqui, o artista francês demonstra ser um digno colega de teclado do mágico Keith Jarret.

1. Oh Freedom 3:25
2. Let My People Go (Go Down, Moses) 4:34
3. Sometimes I Feel 3:56
4. Go Tell It On the Mountains 3:06
5. Down By the Riverside 3:54
6. Michael Rows the Boat Ashore 3:28
7. Glory, Glory Alleluia 3:31
8. Swing Low, Sweet Chariot 4:26
9. Amazing Grace 4:01
10. Deep River 4:53
11. Nobody Knows de Trouble I’ve Seen 3:07
12. By and By 3:18
13. When the Saints 3:50
14. My Funny Valentine – Rodgers, R 4:57


 

  • Publicação: Jornal da Tarde (São Paulo / SP – Brasil)
  • Data: Sexta-feira, 23 de março de 2001
  • Título: Um casamento incomum que deu certo

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