A voz toda soprano queria ter

NATALIE DESSAY: a soprano enfeita as canções com floreios como os do período barroco

É no auge de uma carreira brilhante que a soprano francesa Natalie Dessay pode ser ouvida em Heroínas de Mozart, CD importado da etiqueta Virgin Classics. Acompanhada pela muito requintada Orquestra da Era do Iluminismo, regida com perspicácia e gosto por Louis Langrée, ela aí dá um show de técnica e de musicalidade, como que cantado na estratosfera, naquela região de sons superagudos à qual têm acesso apenas algumas poucas cantoras.

Nascida em Lyon, há 36 anos, Natalie Dessay ganhou o prêmio do Bicentenário Mozart, em 1991, o que acabou por dar a ela uma projeção internacional. O timbre de sua voz, na atualidade, é classificado de soprano coloratura. Isso significa que, além de ser capaz de produzir sons muito agudos, ela realiza com facilidade as ornamentações, arabescos e floreios com os quais os cantores dos períodos barroco e clássico costumavam enfeitar a linha de canto.

A garganta de Natalie Dessay é um instrumento privilegiado. De grande extensão, ela alcança com notável facilidade três oitavas (indo de lá bemol 2 a lá bemol 5), o que lhe dá acesso a um repertório frequentado por raras de suas colegas. Além disso, sua voz não tem aquele timbre metálico e desagradável tão comum na difícil tessitura da chamada soprano ligeiro. Ao contrário, ela exibe em seu registro superagudo uma deliciosa cor aveludada, muito confortável para os ouvidos.

O repertório mozarteano escolhido para este seu novo disco é bastante panorâmico. Inclui desde árias de óperas da juventude, como Ascânio em Alba, estreada em 1771, quando o compositor tinha 15 anos, até uma de suas derradeiras obras-primas, A Flauta Mágica, de 1791, datada do ano em que Mozart faleceria precocemente, aos 35 anos. Entre essas duas partituras-limite encontramos rebrilhantes trechos de Lucio Silla, Zaide (O Serralho), O Rapto no Serralho e Indomeneo, Rei de Creta.

A facilidade com que Natalie Dessay realiza as mais complexas pirotecnias postas no papel por Mozart fica evidente nas duas árias da Rainha da Noite de Die Zauberflöte, que estão entre as mais lindas de todo o repertório operístico. E as sutilezas das suas interpretações líricas podem ser percebidas na sua abordagem da encantadora ária – Descansa em paz, minha vida, da infelizmente inacabada Zaide. Assim, seja no clima de “olimpíadas pirotécnicas” da rutilante Ah, se o cruel perigo de Lucio Silla ou no tom plangente e de meiga resignação de Ah, eu sinto, da delicada Pemina tem-se a presença de uma intérprete de primeira grandeza.


  • Publicação: Jornal da Tarde (São Paulo / SP – Brasil)
  • Data:Sexta-feira, 01 de junho de 2001
  • Título: A voz toda soprano queria ter

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