Transcrições renovam a obra de Bach

‘Bach -Transcriptions’: CD é destaque entre os vários lançamentos que marcaram os 250 anos da morte de Bach em 2000

 

Os 250 anos do desaparecimento de Johann Sebastian Bach (1685-1750) foram fartamente comemorados em 2000. Além de festivais e de concertos, sua obra inteira foi relançada em partituras e discos. Nem mesmo a música popular ficou de fora: o jazz, o pop e o chorinho brasileiro se vestiram de barroco para celebrar a ocasião.

Um disco especialmente interessante lançado em 2000 pela etiqueta inglesa Chandos se chama Bach – Transcriptions. Com a sonora Filarmônica da BBC, regida por seu diretor artístico Leonard Slatkin, aí foram juntadas várias transcrições sinfônicas de obras que o Kantor de Leipzig originalmente destinara ao teclado, ao violino ou a vozes.

Muito praticada na época de Bach, este processo consiste em transcrever uma obra de um meio sonoro para outro. O próprio mestre barroco fez várias delas, sobretudo de compositores italianos.

Com a criação do maior aparato sonoro existente no mundo, a orquestra sinfônica, desde o século 19 compositores vêm transcrevendo, com maior ou menor felicidade, partituras de Bach. A roupagem sinfônica dá uma outra fisionomia a essas obras, que com ela costumam soar mais grandiosas.

Esse CD de Leonard Slatkin é surpreendente porque não traz nenhuma das famosas transcrições de Leopold Stokowski. Em contrapartida, faz-nos descobrir coisas inéditas, como Prelúdio e Fuga em Dó maior, BWV 545, em transcrição do franco-suíço Arthur Honneger, e a estonteante Chacona da Partita para violino n.º 2, em Ré menor, BWV 1004, em rutilante orquestração de Joseph Joachim Raff (1822-1882). Esta última versão consegue dar uma nova dimensão ao original, que aqui se transforma em algo verdadeiramente cósmico.

Os ingleses Granville Bantock, Edward Elgar, Vaughan Willimas e Gustav Holst também são representados nessa antologia através de seus trabalhos feitos com cuidado e veneração pelos originais. Já o italiano Ottorino Respighi providencia uma extrovertida e espetacular orquestração da Passacalha e Fuga em Dó menor, que contrasta com a severidade de instrumentação feita do prelúdio-coral O Mensch, realizada pelo alemão Max Reger.

Especialmente notável é a transcrição que o radical Arnold Schoenberg providenciou para o Prelúdio e Fuga em Mi bemol maior, Santa Ana. Vestindo a persona de um Brahms mais ousado, ele concretizou uma orquestração modelar, que continua a soar clássica sete décadas depois de ter sido concebida.


  • Publicação: Jornal da Tarde (São Paulo / SP – Brasil)
  • Data: Sexta-feira, 16 de março de 2001
  • Título: Transcrições renovam a obra de Bach

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