A moderna ‘Sagração’ de Stravinsky

 

O CD de Fazil Say, lançado pela Teldec, possui timbres de um piano ‘preparado’ (com papel, madeira e metal acrescentados às cordas)

 

No próximo 29 de maio, o balé A Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky (1882-1971), completa 88 anos. Provocando enorme escândalo em sua estreia parisiense, a partitura logo se tornou um dos mais fortes ícones da Modernidade. A versão pianística que Fazil Say oferece dela agora (etiqueta Teldec) é bem uma prova não só da sua durabilidade como também do fascínio que essa obra exerce sobre o público e sobre os intérpretes.

Nascido na Turquia há 30 anos e com especialização realizada na Alemanha, Fazil Say era conhecido, até o momento, por um repertório “normal”, que incluía Bach, Mozart e Gershwin, dentre outros. Sua releitura radical do célebre Le Sacre du Printemps vem provocando saudáveis e acaloradas discussões, colocando o seu nome em maior evidência.

Para realizar o seu trabalho, o pianista tomou como base a partitura para piano a quatro mãos que o próprio Stravinsky fez publicar em 1913. Além de servir para ensaiar os dançarinos, ela permitia um acesso caseiro à obra, ainda que fosse de execução dificílima.

Fazil Say não se contentou em realizar sozinho essa redução destinada a dois instrumentistas. Tomou o full score orquestral, publicado pela primeira vez em 1923, e tomou daí uma série de ideias que haviam ficado de fora da versão para dueto de pianistas. Assim, ele “orquestrou” o piano, chegando a adicionar, aqui e ali, timbres de um piano “preparado” – aquela invenção de John Cage que consiste em acrescentar materiais (papel, madeira, metal) às cordas do instrumento.

As sessões de gravação foram realizadas na suntuosa acústica da Grande Sala do Arsenal de Metz, na França, empregando um único Steinway de concerto. Três microfonizações distintas permitiram que o som do piano fosse capturado tanto em close quanto em plano americano e geral. E, por um processo de acrescentação, Fazil Say foi do emprego de apenas a mão direita (para enunciar o célebre tema do fagote da Introdução) até a sobreposição do trabalho simultâneo de dez mãos. O resultado é de tirar o fôlego.

Dando um andamento um pouco mais rápido que os de Boulez ou Abbado diante de orquestras, Fazil Say conseguiu, com extraordinária clareza, dar uma eletricidade extra a essa obra-chave da velha Modernidade. (Quem tiver em casa um computador moderno poderá ver e ouvir o intérprete em seu repertório “normal”).

Premier Partie: L’Adoration De La Terre = First Part: Adoration Of The Earth
1. Introduction 3:07
2. Les Augures Printaniers / Danse Des Adolescentes (The Augurs Of Spring / Dances Of The Young Girls) 2:54
3. Jeu Du Rapt (Ritual Of Abduction) 1:16
4. Rondes Printanières (Spring Rounds) 3:26
5. Jeux Des Cités Rivales (Ritual Of The River Tribes) 1:36
6. Cortège Du Sage (Procession Of The Saga) 0:33
7. Le Sage (The Sage) 0:26
8. Danse De La Terre (Dances Of The Earth) 1:10
Seconde Partie: Le Sacrifice = Second Part: The Sacrifice
9. Introduction 4:02
10. Cercles Mystérieux Des Adolescentes (Mystic Circles Of The Young Girls) 2:43
11. Glorification De L’élue (Glorification Of The Chosen One) 1:26
12. Evocation Des Ancêtres (Evocation Of The Ancestors) 0:47
13. Action Rituelle Des Ancêtres (Ritual Actions Of The Ancestors) 3:29
14. Danse Sacrale (L’Élue) [Sacrificial Dance (The Chosen One) 4:17

 


  • Publicação: Jornal da Tarde (São Paulo / SP – Brasil)
  • Data: Sexta-feira, 02 de março de 2001
  • Título: A moderna ‘Sagração’ de Stravinsky

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