Pavarotti ainda é um fenômeno

‘Live Recital’: o tenor já não exibe a garganta de um mocinho, mas este CD
pode virar cult como os discos da fase “decadente” de Maria Callas

Os 40 anos de uma gloriosa carreira estão sendo comemorados com o CD Luciano Pavarotti Live Recital (etiqueta Decca, lançamento nacional). Esse disco contém 23 registros realizados ao vivo pelo Divo maior em Viena, Paris, Zurique e Madri, entre 1997 e 1999. Assim, funciona como um documento a respeito da longevidade da atuação desse tenor que completará 66 anos em outubro próximo.
Debutando em 1961, Pavarotti conquistou a cena das principais casas de ópera do mundo. A multiplicidade dos timbres, a homogeneidade da emissão e a ampla tessitura da sua voz, aliadas aos seus poderosos dotes de intérprete lírico e dramático, tornaram-no famoso quase que instantaneamente. Durante a década de 1970, ele reinou soberano no domínio operístico “sério”.
Personalidade carismática, figura extremamente comunicativa, Pavarotti deu uma guinada em sua carreira a partir da década de 1980, ao participar de apresentações destinadas ao chamado grande público. Assim, quando estrelou o espetáculo Os Três Tenores, no encerramento da Copa de 1990, ao lado de Plácido Domingo e de José Carreras, já era um pop star. Nenhum outro cantor do passado – nem mesmo Enrico Caruso ou Maria Callas – conseguiu se tornar tão popular quanto ele.
À medida em que foi se tornando cada vez mais televisivo e popular, Pavarotti passou a ser mais e mais denegrido pelos “puristas”, essa categoria que parece ignorar os limites do ridículo. Por outro lado, é verdade, o cantor foi perdendo algo do viço da sua voz privilegiada.
Atualmente, ele se encontra no “outono” de uma carreira que parece não querer abandonar.
Nesse Live Recital, ele exibe uma garganta que já não é mais a de um mocinho. Mas ninguém pode garantir que, no futuro, esse CD não venha a gozar do mesmo status que, hoje, faz tanta gente ouvir emocionado gravações da fase “decadente” de Maria Callas ou de Billie Holiday.
Nesse disco em que é acompanhado pelo comportado pianista Leone Magiera, Luciano Pavarotti desfia árias e canções assinadas por Bononcini, Beethoven, Scarlatti, Bellini, Donizetti, Cilea, Verdi e Puccini. E também canta nove deliciosas miniaturas desse cancionistas admirável que foi Paolo Tosti (1846-1916). Enfim, esse é um disco indicado para todo o ouvinte que ainda considera, com muita razão, que o tenor de Modena foi o mais fascinante fenômeno vocal em seu gênero surgido na segunda metade do século 20.

1 Bononcini: Griselda – Per la gloria d’adorarvi 4:01
2 Beethoven: In questa tomba obscura, WoO.133 2:56
3 Scarlatti: L’honestà negli amore – Già il sole dal Gange 2:12
4 Bellini: Dolente immagine di Fille mia 2:46
5 Bellini: Malinconia, ninfa gentile 1:29
6 Bellini: Vanne, o rosa fortunata 2:06
7 Bellini: Bella nice che d’amore 2:12
8 Bellini: Ma rendi pur contento 2:16
9 Puccini: Tosca / Act 1 – “Recondita armonia” 2:50
10 Puccini: Tosca / Act 3 – “E lucevan le stelle” 2:59
11 Tosti: La Serenata 3:20
12 Tosti: Non t’amo più 4:43
13 Tosti: Luna d’estate 2:09
14 Tosti: Malìa 2:30
15 Donizetti: L’elisir d’amore / Act 2 – “Una furtiva lagrima” 4:17
16 Tosti: Chanson de l’adieu 3:47
17 Tosti: L’ultima canzone 4:02
18 Tosti: ‘A vucchella 2:38
19 Tosti: L’alba sepàra della luce l’ombra 2:32
20 Cilea: L’arlesiana – E la solita storia 4:01
21 Donizetti: Me voglio fa’na casa 2:39
22 Tosti: Marechiare 3:07
23 Verdi: Rigoletto / Act 3 – “La donna è mobile” 2:38

 


  • Publicação: Jornal da Tarde (São Paulo / SP – Brasil)
  • Data: Sexta-feira, 20 de abril de 2001
  • Título: Pavarotti ainda é um fenômeno

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