Karin exibe em ‘Piano’ talento de intérprete

A paulistana Karin Fernandes desfila no disco inventividade e sensibilidade nas
suas interpretações

A pianista Karin Fernandes foi a grande vencedora da décima edição do Prêmio Eldorado de Música, em 1999. Como parte da premiação, ganhou a possibilidade de gravar um disco só seu, Piano, que a Gravadora Eldorado acaba de lançar. Neste CD ela se mostra em um recital atraente, integrado por obras assinadas por Alberto Ginastera, Mario Campos, Maurice Ravel, Sergei Prokofiev e Oscar Lorenzo Fernandez.
Paulistana de 29 anos, Karin Fernandes nasceu pianista. Apaixonou-se por esse instrumento ainda menina e se dedicou a ele com afinco. Por razões existenciais, mais de uma vez ela abandonou o piano em favor de outras e variadas atividades. Mas sempre acabava voltando para ele, por causa da necessidade inadiável de o tocar.
Sua brilhante participação no último Prêmio Eldorado de Música parece abrir uma nova – e definitiva, esperamos – fase na sua carreira de pianista. Suas qualidades de intérprete, percebidas com unanimidade pelo júri do Prêmio, são também bastante audíveis nesse CD de produção caprichadíssima.
Karin Fernandes aborda de maneira bastante peculiar a difícil Sonata n.º 1 que o argentino Alberto Ginastera (1916-1983) escreveu em 1952. A partitura, concebida em moldura clássica de quatro movimentos, associa elementos inspirados ao folclore e técnicas composicionais então em voga, como o politonalismo e o livre do dodecafonismo. Em vez de tratá-la como uma peça de exibição virtuosística, a intérprete preferiu salientar os aspectos ora líricos, ora dramáticos postos em pentagrama. E foi assim que, em suas mãos, essa sonata se transformou em uma narrativa repleta de peripécias expressivas.
Em seguida, Karin realiza uma obra de um compositor amigo seu, Mario Campos (1959), datada do ano passado. Ecos de Sonatas e Ruas está mergulhada no sentimento novamente tonal do pós-modernismo, tomando como ponto de partida a música popular brasileira. Quando comparada a outras peças musicalmente mais densas do disco, essa obra de nome evocativo passa a falsa impressão de ser, estilisticamente, anterior a elas.
Já a nonagenária Sonata n.º 1 do russo Sergei Prokofiev (1891-1953) soa bastante interessante na leitura da pianista. Karin a percebe como um trabalho juvenil e rebelde, com um pé no Romantismo e outro na Modernidade.
No ponto alto do CD está a sua execução da Sonatine, que Maurice Ravel (1875-1937) completou em 1905. Com o seu perfeccionismo de relojoeiro suíço (a expressão é de Stravinsky) o autor nessa obra erigiu uma construção clara e de elegância refinada. Pois a intérprete consegue extrair dela toda uma gama de emoções ocultas, indo da meiguice à melancolia e à exasperação. Isso deu uma vida nova a essa “pequena” sonata.
O disco é encerrado com aquela que parece ter sido a derradeira composição de Lorenzo Fernandes, a Sonata Breve, de 1947. A obra, tensa e cheia de energia, bebe nas velhas fontes de um nacionalismo que, hoje, nos parece acanhado. Ela é tocada com toda a dedicação pela nossa pianista.

 


  • Publicação: Jornal da Tarde (São Paulo / SP – Brasil)
  • Data: Domingo, 18 de fevereiro de 2001
  • Título: Karin exibe em ‘Piano’ talento de intérprete

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