Um coral de vozes vivas

Ars Viva: o grupo vocal criado há 40 anos mostra neste CD duplo obras de compositores como Gilberto Mendes, Almeida Prado e Gil Nuno Vaz

 Música Nova Para Vozes é o título do CD duplo com o qual o Madrigal Ars Viva mostra o seu brilhante trabalho. Regido por Roberto Martins, esse grupo vocal que é o mais importante do Brasil na música contemporânea, apresenta uma bela antologia que reúne obras de compositores de Santos, cidade-sede do grupo: Gilberto Mendes, Almeida Prado, Gil Nuno Vaz e do próprio regente.

Criado em 1961, o Madrigal Ars Viva foi impulsionado pela figura do maestro-dentista Klaus-Dieter Wolff (1926-1974). Aliando-se ao que de melhor havia na época em termos de música de vanguarda, o coro iniciava uma trajetória importante, marcando para sempre o nosso panorama musical mais ventilado. O amor, a dedicação e o apuro técnico-estético do maestro fundador foram os responsáveis pela solidez e a durabilidade do coro.

Nesse álbum-duplo de uma hora e quarenta e seis minutos de duração, o Madrigal Ars Viva brilha em suas execuções esmerilhadas. E a presença de dois artistas convidados – a límpida soprano Heloísa Petri e o competente guitarrista Ulysses Mansur – amplia ainda mais a beleza das suas aventuras sonoras.

A figura dominante dos discos é a de Gilberto Mendes (1922), cuja “volubilidade” estilística vem garantindo à sua música uma invejável juventude. Dos anos radicais da vanguarda da década de 1960, aí estão peças já clássicas como o anti-jingle Beba Coca Cola, Asthmatour, Vai e Vem e nascemorre, concebidas sobre poemas dos poetas concretos. A fase mais recente do compositor – entre pós-moderna e engajada politicamente – é representada por dez peças saborosíssimas, como a deliciosa Salada de Frutas.

O outro compositor santista interpretado pelo Madrigal Ars Viva é Almeida Prado (1943). Nas três peças sacras executadas, sente-se o artista de imaginação harmônica requintada e o autêntico mestre na condução das linhas melódicas postas na trama polifônica.

Já Roberto Martins (1943) e Gil Nuno Vaz (1947) partem do mesmo ícone, Gilberto Mendes, para a arquitetura de obras bastante pessoais. Martins, que denota uma grande admiração pelos velhos mestres renascentistas, põe em evidência o seu lirismo compungido. Vaz, por sua volta, elabora sua música nela incluindo referências que vão da Idade Média ao universo pop, oscilando entre a seriedade e o humor. Ambos merecem respeito, sobretudo por trabalharem meio a um deserto de invenção, que ocupa boa parte do atual panorama brasileiro “erudito”.

 


  • Publicação: Jornal da Tarde (São Paulo / SP – Brasil)
  • Data: Sexta-feira, 05 de janeiro de 2001
  • Título:  Um coral de vozes vivas

 

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