Olho crítico: as memoráveis canções de Joseph Kosma

O barítono François Le Roux, o pianista Jeff Cohen e um pequeno grupo de músicos tocam ‘chansons’ que não envelheceram com o tempo

 

O autor de algumas das mais memoráveis canções francesas deste século foi o judeu-húngaro Joseph Kosma (1905-1969). O CD Les Feuilles Mortes (etiqueta Decca, da Inglaterra) traz uma linda antologia do seu trabalho. O barítono François Le Roux, ao lado do pianista Jeff Cohen e de um pequeno grupo que reúne violino, viola, violoncelo, acordeão e clarineta, canta 37 dessas chansons que o tempo ainda não conseguiu envelhecer.

Kosma nasceu em Budapeste, onde teve educação musical acadêmica. Durante a década de 1920, foi para Berlim, onde trabalhou com Eisler e Brecht. Em 1933, viu-se obrigado a partir para Paris, mesmo sem ter um tostão e de não saber francês. Ali, salvou-o o poeta Jacques Prévert, que seria o seu mais frequente parceiro, ao apresentá-lo a cineastas como Jean Renoir e Marcel Carné. Kosma então escreveu música para o cinema, o que fez com que sua arte se tornasse conhecida.

Depois da Segunda Guerra, o compositor fez parte do movimento existencialista, musicando textos de Jean-Paul Sartre e escrevendo canções para a musa da época, Juliette Greco. Durante as décadas de 1940 e 1950 escreveu algumas das suas canções mais conhecidas, como As Folhas Mortas e As Crianças que se Amam, ambas sobre poemas de Prévert e Jésus la Caille, sobre texto de Francis Carco que fala do garoto que se prostitui nas ruas de Paris.

Foram vários os poetas que inspiraram canções a Joseph Kosma. Entre eles encontram-se, além dos já citados, Queneau, Tzara, Lanjean, Montho, Pivier e Déant. Para todos os poemas o compositor providenciou linhas melódicas líquidas e de fácil assimilação, sobre harmonias tonais claras e expressivas. E, além das canções e de música incidental para o teatro e o cinema, Kosma deixou peças para piano – os ciclos Dança dos Autômatos e Cânticos do Gueto constam do disco –, música de câmara, concertos e óperas.

As canções reunidas no disco Les Feuilles Mortes dão um belo retrato desse artista preocupado com o amor e as injustiças sociais. O barítono escande os textos de maneira clara, ainda que exagere, aqui e ali, em um tom operístico. O grupo instrumental que acompanha François Le Roux é fluente e requintado.


  • Publicação: Jornal da Tarde (São Paulo / SP – Brasil)
  • Data: Sexta-feira, 22 de dezembro de 2000
  • Título:  Olho crítico: as memoráveis canções de Joseph Kosma

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