Um piano no cinema

 

O CD ‘The Film Music of Nino Rota’, de Massimo Palumbo: originais executados de forma transparente, em interpretações refinadas

 

Um bom bocado da música feérica e sonhadora que o milanês Nino Rota (1911-1979) escreveu para o cinema encontra-se no CD The Film Music of N.R. Isso, em originais e transcrições pianísticas do próprio compositor, em interpretações refinadas e sensíveis do seu compatriota Massimo Palumbo. (Esse disco da etiqueta inglesa Chandos, n.º CHAN 9771, é encontrável em lojas de São Paulo que têm material importado).

Para a maioria das pessoas, Nino Rota é sinônimo de “compositor de filmes de Fellini”. Mas, na área cinematográfica, ele começou bem antes de conhecer o autor de Amacord, em 1944, alcançando um extraordinário sucesso internacional em 1950, com o tema que compôs para A Montanha de Cristal, de Cass. Para a tela grande, ele escreveu 80 partituras.

Menino-prodígio que já compunha aos 8 anos, Nino Rota educou-se na Itália e nos EUA. No setor erudito, deixou-nos balés, cantatas, oratórios, música de câmara e sinfônica, além de óperas como O Chapéu de Palha de Florença, de 1946, encenada em São Paulo há alguns anos.

Como artista, acreditou na supremacia da melodia, no uso da tonalidade livre de qualquer complexidade, adotando formas e ritmos elencados pela tradição. Via a música como expressão direta e espontânea e foi grande improvisador ao piano.

Em sua música para o cinema, Nino Rota sempre privilegiou a balada, a valsa, o fox e a marcha, temperando seu romantismo com toques de humor ingênuo. Concebeu temas memoráveis como os de O Poderoso Chefão (Coppola, 1972), Romeu e Julieta (Zeffirelli, 1968), O Leopardo (Visconti, 1963), Oito e Meio (Fellini, 1963) e Giulietta dos Espíritos (Fellini, 1965). E também inventou coisas deliciosas para filmes menos conhecidos no Brasil como Fanciulle di lusso, Fantasmi a Roma e Quel bandito sono io, que inclui até mesmo um Samba Napolitano.

Tudo isso – mais material proveniente de Morte no Nilo, Obsessão e A Megera Domada – encontra-se nesse disco do excelente pianista Massimo Palumbo que, aliás, já excursionou pelo Brasil. Esse intérprete executa os originais de Nino Rota de maneira transparente, nunca exagerando no seu espírito entranhadamente romântico.

Pouco antes de morrer, o compositor segredou ao amigo Pier Marco De Santi: “Quando sento-me ao piano, buscando uma melodia, acontece de eu me considerar um homem feliz. Mas, enquanto homem, como sentir-se feliz no coração da infelicidade alheia? Esse é um dilema sem solução. O sentimento que anima minha música, que dá a ela a sua razão de ser, é a esperança de que ela oferecerá pelo menos um instante de serenidade a aqueles que a escutam”. Este CD pode conseguir isso.

 


  • Publicação: Jornal da Tarde (São Paulo / SP – Brasil)
  • Data: Sexta-feira, 20 de outubro de 2000
  • Título:  Um piano no cinema

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