Pianista mantém flerte com a música popular

Há pessoas para as quais o dia parece ter mais de 24 horas. Daniel Barenboim é uma delas. Além de ser o diretor-musical da Sinfônica de Chicago e diretor-artístico da Ópera de Berlim, ele rege várias outras orquestras, participa de festivais e ainda se apresenta ao piano em solos ou integrando grupos de câmara. Mesmo assim, ainda encontra tempo para manter namoricos com a música popular.

Nascido em Buenos Aires, Barenboim já registrou um CD (e vídeo) louvando o tango e a milonga de sua cidade natal em Tango among Friends (1996) – uma delícia de requinte e naturalidade. Em 99, gravou Tribute to Ellington, marcando o centenário do jazzista americano de maneira emocionada e impactante.

Agora chegou a nossa vez. A partir de takes feitos no Rio, Chicago e Berlim, Barenboim montou o álbum Brazilian Rhapsody (Teldec-Werner). Mesmo antes de ouvi-lo, alguns vão decretar que se trata de “uma visão paternalista do nosso acervo artístico” ou dirão que “artista erudito fazendo música popular não dá certo”. Talvez esses guardiães da tradição mudem de ideia depois de ouvir o disco. E se deem conta de que ele é uma homenagem, singela e refinada, a esse país, entre real e imaginário, chamado Brasil musical.

Diálogos musicais

O repertório de Brazilian Rhapsody é curioso. Há desde aquelas músicas “incontornáveis” – Tico-Tico no Fubá, Aquarela do Brasil e Bahia –, que projetaram a nossa música internacionalmente, até os “sucessos de sempre” como Manhã de Carnaval, Tristeza, Pedacinhos do Céu e Wave. E também surpresas, como a inclusão de Avarandado, de Caetano, e da voz de Milton Nascimento em dois momentos (Travessia e Eu Sei que Vou te Amar).

Deixando de lado a peça anódina que dá nome ao disco, do arranjador Bebu Silvetti, há dois saborosos trechos do álbum Saudades do Brasil, que o francês Darius Milhaud escreveu, depois de ter-nos visitado durante a Primeira Guerra.

Os arranjos, bastante discretos, funcionam bem. Em vez da macumba para turista que é fazer MPB com sinfônica, optou-se por um sexteto, que toca como um transparente conjunto de câmara. Apoiado pela percussão de Cyro Baptista e pelo contrabaixo de Rober Kassinger, Barenboim dialoga calmamente com um violino (Nikolai Znaider), uma flauta (Emmanuel Pahud), um oboé (o brasileiro radicado nos EUA Alex Klein) e uma clarineta (Larry Combs).

O toque do pianista é extraordinário e sua técnica, monumental. Artista matreiro, ele sabe onde deve brilhar. Homem sensível, intui onde deve soar humorado ou romântico. Pinceladas de impressionismo francês e de cool jazz auxiliam Barenboim a conferir um certo ar cosmopolita a essa sua declaração de amor pela nossa música.


  • Publicação: Jornal da Tarde (São Paulo / SP – Brasil)
  • Data: Quarta-feira 09 agosto de 2000
  • Título: Pianista mantém flerte com a música popular

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