Um Debussy renovado

O pianista Alain Planès apresenta nova leitura musical dos 24 Prelúdios do francês Claude Debussy, lançados em dois livros no início do século.

Com os seus Prelúdios, o francês Claude Debussy operou uma autêntica revolução no domínio da música para piano, no início deste século.  Mas fez isso com mãos de veludo.  Assim, não chocou tanto o público da época, que via com muita reticência a sua produção orquestral e que ficara escandalizado com sua única ópera, Pelléas et Mélisande.

Esses vinte e quatro Préludes lançados em dois livros – em 1910 e 1912 – aparecem especialmente renovados na leitura que Alain Planès propõe nesse seu novo disco para a etiqueta Harmonia Mundi (nº HMC 901695).  E o mais curioso de tudo é que ele aí emprega um instrumento Bechstein de 1897, contemporâneo do próprio Claude Debussy (1862-1918).

Com os Prelúdios, Debussy substituiu a longa melodia romântica pelo breve arabesco, tratando-o como parte de um vitral sonoro.  Também abandonou a harmonia tradicional, passando a usar os acordes como entidades autônomas, geradoras de nuvens de cor.  E, deixando de lado a quadratura dos velhos ritmos, concebeu novas pulsações repletas de uma energia inédita.  E mais: transformou os pedais do instrumento em autênticos filtros de timbres.

Debussy batizou cada um de seus Prelúdios com títulos entre evocativos e misteriosos –Dançarinas de Delfos, O que viu o vento Oeste, Brumas, etc.  Mas fez questão de colocar esses títulos apenas no final de cada volume, para que o intérprete tivesse a liberdade de criar as suas próprias atmosferas, os seus próprios climas.

O que há para ouvir nesses Prelúdios debussianos?  Sobretudo a vida de um fluir de timbres, de cores que não param de variar.  Como não “decretam” nada e sim insinuam, eles às vezes abrem os nossos ouvidos para o desconhecido, para uma linguagem musical relativizada em seus parâmetros.  Enfim, eles concretizam o gesto revolucionário da Modernidade, que desejou fornecer aos ouvintes novas maneiras de sentir e de pensar a própria música, a existência.

Alain Planès foi o primeiro pianista a gravar os Prelúdios a partir da sua nova edição musicológica.  Ao empregar um instrumento antigo, cheio de sons harmônicos, fere as suas teclas como se estas fossem potes de múltiplas cores.  E o felino Debussy que ressurge daí é pura surpresa, é encantamento.


  • Publicação: Jornal da Tarde (São Paulo / SP – Brasil)
  • Data: Sexta-feira, 28 de abril de 2000
  • Título: Um Debussy renovado

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