Um duo entre o clássico e o popular

Bico-de-Pena, formado pelo casal Renato (violoncelo) e Angelique Camargo (flauta) surpreende em sua estreia.

O Duo Bico-de-Pena estreia em disco de produção independente intitulado Entre Linhas. Sua formação é incomum, para não dizer disparatada. É que ele reúne a flauta de Renato Camargo e o violoncelo de Angelique Camargo. O CD, muito bem gravado, soa curioso e envolvente.

Renato, 29 anos, e Angelique, 27, são casados e formam um par introvertido, delicado e muito simpático. A música que eles fazem tem a cara deles – é uma aliança de refinamento e de meiga extroversão. O que fazem tem o sabor das coisas acariciadas com empenho e amor. Melhor do que ninguém, é o próprio Renato Camargo que define o teor do disco: “Trata-se de um trabalho híbrido, uma releitura da música popular brasileira sob a luz da música erudita, apresentada sob o formato de música de câmara”. O CD é bem isso e mais do que isso.

Porque, além de navegar entre essas duas linhas musicais distintas com muita perícia, propõe-se como um espaço musical relativizado e, entretanto, agradável. As 14 músicas que integram o CD foram escolhidas a dedo. Vão de peças do início do século – Zinha e Primeiro Amor, de Patápio Silva – a coisas mais recentes – Luíza, de Tom Jobim, Frevo e Karatê, de Egberto Gismonti, Valsa Brasileira, de Edu Lobo e Chico Buarque, e Chorinho pra Ele, de Hermeto Pascoal. Também estão presentes alguns dos mais lindos clássicos da MPB, tais como Conversa de Botequim (Vadico/Noel Rosa) e Naquele Tempo (Pixinguinha). E três inéditos: Angelique e Matizes do flautista do duo e a homenagem feita a ele por Yves Pignot, Chorinho para Renato Camargo.

O óbvio seria esperar que o instrumento mais agudo, a flauta, se encarregasse dos solos, com o apoio do instrumento mais grave, o violoncelo. Mas os arranjos fogem disso, entregando a ambos partes de igual importância. O resultado é um fino e intrincado jogo polifônico que, além de enunciar os temas escolhidos, voa através de improvisos inspirados. Os arranjos fazem múltiplas referências musicais. Neles se percebem traços de Bach e de Villa-Lobos, dos velhos chorões, dos sambistas da velha guarda, da bossa nova e do jazz. Em outras mãos, esses ingredientes poderiam resultar em uma mera salada. Mas não é o que acontece com a intervenção do Bico-de-Pena: aí tudo soa ajustado e harmonioso, ainda que várias vezes surpreendente. E é assim que Entre Linhas resultou em algo tão prazeroso de ser ouvido..

1. Conversa De Botequim – Noel Rosa e Vadico
2. Eu Te Amo – Chico Buarque e Tom Jobim
3. Zinha – Patápio Silva
4. Primeiro Amor – Patápio Silva
5. Valsa Brasileira – Chico Buarque e Edu Lobo
6. Karatê – Egberto Gismonti
7. Angelique – Renato Camargo
8. Chorinho Pra Ele – Hermeto Pascoal
9. Naquele Tempo – Pixinguinha
10. O Voo Da Mosca – Jacó do Bandolim (Jacob Pick Bittencourt)
11. Luiza – Tom Jobim
12. Chorinho Para Renato Camargo – Yves Pignot
13. Frevo – Egberto Gismonti
14. Matizes – Renato Camargo


  • Publicação: Jornal da Tarde (São Paulo / SP – Brasil)
  • Data: Segunda-feira, 10 de abril de 2000
  • Título: Um duo entre o clássico e o popular

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *