Boulez dá uma versão pessoal à obra de Mahler

Boulez: o maestro faz uma polêmica interpretação da ‘Quarta Sinfonia’ de Mahler, evitando a “tradição interpretativa”

A Sinfonia n.º 4, em sol maior, de Gustav Mahler (1860-1911), gravada por Pierre Boulez para o selo Deutsche Grammophon (n.º 463 257-2), acaba de chegar às lojas de São Paulo que trabalham com CDs importados.  A extraordinária beleza da Cleveland Orchestra e o timbre juvenil da soprano alemã Juliane Banse fazem contraste com a interpretação discutível que o maestro imprimiu a essa que é a mais “camerística” (digamos assim) das paquidérmicas sinfonias desse compositor art-nouveau.

Quando esteve aqui pela última vez, em 1996, Pierre Boulez nos assegurou que não faria uma integral das dez sinfonias de Mahler.  Para ele, naquele momento, estavam foram de questão as sinfonias que envolvem massas corais – as de números 2, 3 e 8.  Assim, como já registrou as sinfonias de números 1, 5, 6, 7 e 9, a Quarta talvez seja a última que ele grava, se não mudar de opinião.

Aos 75 anos completados em março último, o Boulez-regente vem sendo cada vez mais festejado.  O mesmo não acontece tanto com o Boulez-compositor, sempre muito radical.  E como ele já mudou de opinião ao abordar um repertório que, na juventude, rejeitava (o Stravinsky neoclássico, o Richard Strauss pós-romântico, o Scriabin “metafísico” e o Bruckner pós-wagneriano), talvez o seu lado “regente” ainda nos dê as três partituras que faltam para ele integralizar a produção sinfônica de Mahler.

Sua execução da Quarta é, no mínimo, polêmica.  Isso porque, logo no primeiro movimento, imprime um andamento rápido que faz Mahler soar um bocado superficial (comparando com a versão “de referência” de Otto Klemperer, o francês faz esse movimento durar dois minutos e 39 segundos a menos).  Mas, a bem da verdade, todas as ideias de Mahler, inclusive as secundárias, são aí ouvidas com muita clareza.  Cotejados com as versões – mais de 30 – tradicionais, os três outros movimentos da Quarta têm duração mais “normal”.  Mas há algo de estranho na execução deles todos.  Eles soam como se Pierre Boulez não tivesse nenhuma ligação emotiva ou sentimental com eles.  E, certamente, ele rejeita esses dois qualificativos em favor de uma lucidez que, aqui e ali, aponta para a verdadeira expressividade da partitura.  Ao propor uma interpretação “lúcida” e “estrutural” da Quarta de Mahler, Boulez consegue, uma vez mais, fazer algo polêmico.  E, ao relativizar a ideia de “tradição interpretativa”, acaba por seguir a ideia do próprio Mahler, que sempre achou qualquer tipo de tradição abjeta.

Symphonie No. 4
1. Bedächtig. Nicht Eilen  (15:17)
2. In Gemächlicher Bewegung. Ohne Hast  (9:31)
3. Ruhevoll (Poco Adagio)  (20:00)
4. Sehr Behaglich “Wir Genießen Die Himmlischen Freuden” – Soprano Vocals [Soprano         Solo] – Juliane Banse  (8:44)


  • Publicação: Jornal da Tarde (São Paulo / SP – Brasil)
  • Data: Sexta-feira, 07 de abril de 2000
  • Título: Boulez dá uma versão pessoal à obra de Mahler

 

 

 

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