Orquestra jovem alemã, com o mestre Boulez

A Orquestra Filarmônica Jovem Alemã (Junge Deutsche Philharmonie) é um exemplo para as orquestras jovens do mundo inteiro.  Fundada em 1974 e integrada por músicos que mal saíram da adolescência, ela vem desenvolvendo um trabalho notável.  Além de se adestrar no repertório clássico e romântico, essa orquestra aborda obras contemporâneas nossas, com um vigor que deve dar inveja às formações que se contentam em soar como museus.

Em um disco recente (Berlin Classics 0021592BC) a Junge Deutsche Philharmonie expõe o seu poder de fogo.  Comandada pelo grande regente russo Kyrill Kondrashin (1914-1981), que faleceu durante uma apresentação da Orquestra de Amsterdã, ela executa, de maneira evanescente, a Rapsódia Espanhola, primeira obra de peso assinada pelo “relojoeiro da orquestração”, o francês Maurice Ravel (1875-1937).

Aí também está a obra mais difícil de Claude Debussy (1862-1918), o balé Jeux (Jogos), “obra aberta” cuja escritura, ainda hoje, desafia qualquer tipo de análise mais ortodoxa.  E ela vem regida por esse fenômeno da clareza e da lucidez que se chama Pierre Boulez (1925).  Impressionismo e pós-impressionismo à parte, a obra desse disco que mais chama a atenção é a releitura que o compositor alemão Hans Zender, nascido em 1936, propõe da Fantasia Op. 17, que o romântico Robert Schumann (1810-1856) escreveu para piano, em 1836.  Quando apareceu, merecidamente dedicada a Liszt, essa partitura não apenas representava um grito de liberdade feito através do piano – obra de grande alento, não se atinha ao esquema “nobre” da Sonata clássica –, como transformava o instrumento em porta-voz do novo tempo, o da modernidade do Romantismo.

Em 1997, Hans Zender voltou-se para a partitura, procurando   fazer dela uma versão mais contemporânea nossa.  Enormemente pianística, a Fantasia de Schumann inspirou-lhe uma partitura orquestral, espécie de tradução traidora do original.  Antes de mais nada, Zender foi aos originais schumanianos que davam títulos aos três movimentos da obra: Ruínas, Troféus e Constelações.  E concebeu, para a introdução de cada seção, uma espécie de “improvisação escrita”, prenunciando as ideias musicais que ainda estavam por vir nos originais de Schumann.  O inquietante resultado dessa operação, bastante fim-de-século, pode ser conferido nesta gravação especial.

A Filarmônica Jovem daquele país é duplamente jovem – por seus integrantes e por seu repertório.


  • Publicação: Jornal da Tarde (São Paulo / SP – Brasil)
  • Data: Segunda-feira, 03 de abril de 2000
  • Título: Orquestra jovem alemã, com o mestre Boulez

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