A vanguarda americana do começo do século

Antologia permite conhecer a obra de Henry Cowell, espécie de Jimi Hendrix da música clássica americana.

O compositor norte-americano Henry Cowell (1897-1965) integrou a velha e boa vanguarda musical que, na segunda década deste século, costumava deixar as plateias mais conservadoras de cabelo em pé.  Uma ótima ideia da originalidade do seu trabalho é fornecida pela antologia da sua obra de câmara, interpretada pelo Colorado Quartet e pelos Musicians Accord, em álbum duplo importado da Mode Records (Mode 72/73, www.mode.com).

Durante a década de 1920, Cowell chocou as plateias europeias e americanas principalmente por sua maneira de tratar o piano.  Com frequência, ele martelava o instrumento com as palmas das mãos ou com os antebraços.  E assim produzia os chamados clusters, agregados complexos de sons dissonantes.  Aliás, ele foi um dos criadores do “contraponto dissonante”.  Acreditando que a harmonia tradicional estava artisticamente esgotada, propôs em seu lugar obras que tinham por base o avesso do conforto consonante.

Algumas obras desta antologia – sobretudo os Quartetos de Cordas (Pedante), de 1916, e o Eufométrico, de 1919 – exploram esse novo espaço sonoro no qual há muita tensão e pouco relaxamento.  Uma curiosidade: em meio às mais incríveis dissonâncias, há várias referências ao passado musical, sobretudo o das formas do período barroco.  Ainda mais interessante, ou anárquico, é o conceito de obra aberta que Cowell desenvolveu com o seu Mosaic Quartet, de 1935.  Nele há cinco movimentos que podem ser tocados em qualquer ordem.  Assim, a cada execução a partitura pode revelar fisionomias diferentes.  Mais radical ainda é uma obra escrita por Cowell dois anos antes de sua morte, em 1963.  Ela se chama 26 Mosaicos Simultâneos.  E é exatamente isso: uma série de ideias musicais entregues aos instrumentistas, que escolhem a ordem da sua execução.  Assim, os instrumentistas começam e param onde quiserem.  Nesta antologia, há três versões distintas de 26 Simultaneous Mosaics, que sugerem a contemplação de um enorme móbile de Calder deixado aos ventos do acaso.

Henry Cowell representa bem o espírito libertário de toda uma geração de artistas americanos que, deixando de lado a tradição e o folclorismo, procurou propor novos espaços expressivos para a música.  No domínio da música popular, Jimi Hendrix e Frank Zappa fariam algo assim, bem depois.

CD 1
1-9. Mosaic Quartet (String Quartet No. 3) (1935)
10. 26 Simultaneous Mosaics (1963) – 1st version
11-14. Suite for Woodwind Quintet (1934)
15. Movement for String Quartet (String Quartet No. 2) (1928)
16. Return (1939)
17-20. Quartet for Flute, Oboe, Cello and Harp (1962)

CD 2
21. Polyphonica (1928)
22. 26 Simultaneous Mosaics (1963) – 2nd version
23. Quartet Euphometric (1916-19)
24-25. Quartet Romantic (1915-17)
26-27. String Quartet No. 1 “Pedantic” (1916)
28. 26 Simultaneous Mosaics (1963) – 3rd version


  • Publicação: Jornal da Tarde (São Paulo / SP – Brasil)
  • Data: Quinta feira, 30 de março de 2000
  • Título: A vanguarda americana do começo do século

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