Boulez interpreta Strauss e Mahler de forma romântica

O francês Pierre Boulez reforça o romantismo de duas obras do fim do século 19, sem sentimentalismo.

Duas obras do final do século 19 – Assim falou Zaratustra, de Richard Strauss, e Ritos Fúnebres, de Gustav Mahler, – passaram para a história como produtos do pós-romantismo, época em que o romantismo teria sido levado ao cúmulo do exagero. Nesta nova virada de século, o francês cartesiano Pierre Boulez dá a sua interpretação dessas partituras, acentuando seu lado romântico e retirando delas qualquer traço de sentimentalismo. Isso, com as gloriosas falanges de timbres da Sinfônica de Chicago.
Also sprach Zarathustra, que Richard Strauss (1864-1949) fez ouvir pela primeira vez em 1896, soou então como música de vanguarda. Para o autor, que apregoava ter-se “inspirado em Nietzche”, esse poema sinfônico pretendia, sem ser “música filosófica”, traçar o desenvolvimento da raça humana, dos primórdios ao estágio de “super-homem” proposto pelo pensador.

Morte de um herói
Por sua vez, Totenfeier (Ritos Fúnebres), que Gustav Mahler (1860-1911) havia escrito em 1888, era um poema sinfônico destinado a simbolizar a morte de um herói – de um regente ou talvez de um final de século. Mais tarde, profundamente reelaborado, ele se transformaria no primeiro movimento da “Sinfonia Ressurreição”, a segunda do compositor.
Ouvidas hoje, ambas as obras soam, simultaneamente, fin-de siècle e premonitórias. O poema sinfônico de Strauss, cuja abertura foi utilizada por Kubrich em “2001”, continua sendo o modelo da “música cinematográfica” rejeitada por Debussy e assumida por John Williams em Guerra nas Estrelas. O movimento sinfônico de Mahler continua a ilustrar um mundo em dissolução, à espera de um novo renascimento.
Músico da vanguarda dos anos 50, polemista e antitradicionalista, Pierre Boulez lê ambas as obras de maneira original. Salienta nelas o que aí existe de “pesquisa” – sobretudo no domínio do timbre e do discurso não mais linear –, fazendo tudo para que elas não soem sentimentais. Assim, suas leituras cartesianas iluminam as partituras de uma obsedante luz racionalista e clara. E, dessa maneira, ele consegue obliterar os velhos demônios da metafísica que, até agora, pareciam estar em suas raízes. O mínimo que se pode dizer de suas execuções é que elas são, para variar, polêmicas.

Also Sprach Zarathustra
Composed By – Richard Strauss
Violin, Soloist – Samuel Magad
1 Einleitung 2:02
2 Von Den Hinterweltlern 4:03
3 Von Der Großen Sehnsucht 2:01
4 Von Den Freuden Und Leidenschaften 1:47
5 Das Grablied 2:04
6 Von Der Wissenschaft 4:13
7 Der Genesende 4:11
8 Das Tanzlied 7:49
9 Nachtwandlerlied 4:16
Totenfeier
Composed By – Gustav Mahler
10 Maestoso – Höchste Kraft – Zurückhaltend – Menü Mosso – Sehr Mäßig Beginnend – Tempo I – Feierlich Und Langsam – Immer Etwas Langsamer – Allegro 25:09


  • Publicação: Jornal da Tarde (São Paulo / SP – Brasil)
  • Data: Quarta-feira, 2 de fevereiro de 2000
  • Título: Boulez interpreta Strauss e Mahler de forma romântica

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