Obras desconhecidas de Stravinsky, o Picasso musical

Porque também descreveu uma trajetória artística em atordoante ziguezague, o russo Igor Stravinsky foi muitas vezes chamado de o Pablo Picasso da música do século 20.

Curiosamente, esse músico de vida longa (1882-1971) continua sendo lembrado apenas por três obras que escreveu há cerca de 90 anos para os Balés Russos de Serguei Diaghilev – ‘O Pássaro de Fogo’ (1910), ‘Petrushka’ (1911) e ‘A Sagração da Primavera’ (1913). O mais recente disco do enorme compositor e regente Pierre Boulez, funcionando diante do Coro e da Orquestra de Cleveland (etiqueta Deutsche Grammophon), realça certos aspectos poucos ou nada conhecidos do generoso catálogo do versátil artista, figura fundamental do panorama musical do século que acabou de passar.

A brilhante antologia bouleziana é muito especial, na medida em que aponta para quatro obras escritas antes, durante e depois dos três balés mencionados. Assim tem-se uma ideia precisa das fantásticas transformações que Stravinsky operou não só no seu estilo, como também no próprio transcorrer histórico dos fatos musicais da Europa no início do século passado. E, como sempre, as interpretações de mestre Boulez primam pela lucidez cirúrgica da leitura, pela capacidade de localizar nos textos os seus meandros labirínticos, desvendando-os e iluminando-os com uma espécie de paixão a um só tempo lógica e selvagem.

Concebido em ordem cronológica, o disco tem início com o ‘Scherzo Fantástico’ que Stravinsky colocou no papel entre 1907 e 1908 – aos 27 anos e, portanto, antes de se tornar célebre graças a ‘L’Oiseau de Feu’. Aí se revela um superior discípulo do professor Rimsky-Korsakov, revestindo essa obra febril com uma suntuosa roupagem orquestral. Uma curiosidade: em uma passagem lenta, existe uma referência (a primeira e última feita pelo compositor) à música de Wagner. Durando pouco mais de onze minutos, esse scherzo é de fatura tradicional.

Vem em seguida a cantata para coro masculino e orquestra ‘Zvezdolikiiy’ (O Rosto Estelar), sobre um poema místico de Konstantin Baumont. Como se fosse um símile literário das figuras plásticas de Mucha ou Klint, esse texto coloca em moldura “decadente” e art-nouveau a figura do Cristo ressuscitado, de “rosto semelhante ao sol no zênite”. Contemporânea de ‘Petrushka’, essa obra parece ter sido feita com pétreos e dourados blocos sonoros, em construção que explora múltiplas ambiguidades harmônicas e põe em relevo um novo tipo de recitativo vocal.

A partitura seguinte é o poema sinfônico ‘O Canto do Rouxinol’, que Stravinsky extraiu em 1917, da ópera ‘Le Rossignol’ baseada no conto fantástico de Hans Christian Anderson. Jamais o compositor foi tão exótico e “chinês” quanto nesta página capaz de cativar até mesmo o ouvinte que costuma ter alergia por música moderna.

Encerrando o CD de forma espetacular e camerística, é apresentada a suíte de concerto que o próprio compositor estruturou a partir da música que concebeu para ‘A História do Soldado’. Espetáculo multimídia de 1918, destinado a músicos, atores e dançarinos, ‘L’Histoire du Soldat’ soou em pauta revolucionária por várias décadas, tornando-se uma das obras mais influentes do extraordinário compositor. Tanto pelos agridoces timbres agenciados quanto pelas harmonias politonais e pelas formas populares empregadas (tango, ragtime, valsa de taberna, coral luterano) essa obra continua soando condimentada ainda hoje, em pleno século 21.


  • Publicação: Jornal da Tarde (São Paulo / SP – Brasil)
  • Data:Sexta-feira, 4 de janeiro de 2002
  • Título: Obras desconhecidas de Stravinsky, o Picasso musical

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