A música de um incomum homem comum

Filarmônica de Londres faz antologia das obras do compositor alemão Karl Amadeus Hartmann

O nome do compositor alemão Karl Amadeus Hartmann (1905-1963) continua sendo ignorado pela maior parte do público, mesmo na Europa. Não sem razão. Durante uma considerável parte de sua vida criativa, por inabalável convicção ética, deixou de mostrar publicamente suas obras. Mas sua música volta agora à tona, graças a várias gravações que nos dão dele um retrato particularmente comovente.

Nascido em Munique, Hartmann formou-se na academia local e, depois, estudou técnicas de vanguarda com Hermann Scherchen e Anton Webern. Nunca se filiou a nenhuma estética ou escola. Elaborou obras em parte ligadas ao passado (Bruckner, Mahler, Reger), em parte relacionadas ao neobarroco de sua época (Hindemith) e às tendências mais arrojadas do momento (Stravinsky, Bartók e Alban Berg). Sua música, profundamente meditativa, exibe também uma furiosa exuberância, resultando em uma dramática visão apocalíptica da realidade.

Hartmann começava a ser internacionalmente conhecido quando, aos 28 anos, viu os nazistas tomarem o poder em seu país. Sendo apenas um cidadão comum – ele não era nem comunista nem judeu –, não se encontrou na contingência de abandonar a Alemanha. Fez “imigração interna” ao retirar todas as suas obras da cena musical. E continuou a escrever secretamente, segundo o seu ascético credo. Depois da guerra, fundou em Munique a série de concertos Música Viva, que trouxe os ventos da efetiva modernidade para aqueles que haviam sobrevivido ao nazismo bestial.

Uma bela antologia da produção orquestral de Hartmann é oferecida pela Filarmônica de Londres, tendo Leon Botstein à regência e a meio-soprano Jard van Nes (disco Telarc CD 80528, importado). Aí está o bloco sinfônico Miserae, de 1935, grito de dor diante da barbárie. Também está aí a Sinfonia n.º 1, de 1936, com agressivas intervenções vocais sobre textos de Walt Whitmann. E, igualmente, a Sinfonia n.º 6, de 1951-53, que aponta para a esperança de dias melhores.

Em outro CD (Teldec 2292-46449-2, importado), encontra-se esta que é, talvez, a obra mais comovente de Hartmann, o Concerto Fúnebre para violino solo e cordas, de 1939. Defendido pelo violinista e regente Thomas Zehetmair, ele vem acompanhado de duas outras obras-primas – o Concerto em Memória de um Anjo de Alban Berg e do Concerto Peregrinação da Alma de Leos Janacek. Tudo música profundamente humana.

London Philharmonic Orchestra – Leon Botstein
Karl Amadeus Hartmann
Symphony No. 1 (On Texts By Walt Whitman, For Alto And Orchestra)
Mezzo-soprano Vocals – Jard Van Nes
1 I. Introduktion: Elend (3:22)
2 II. Frühling (4:42)
3 III. Thema Mit Vier Variationen_Thema (3:02)
4 Var. 1 (1:10)
5 Var. 2 (0:56)
6 Var. 3 (1:35)
7 Var. 4 (2:00)
8 IV. Tränen (8:45)
9 V. Epilog: Bitte (3:21)
Symphony No. 6 (For Large Orchestra)
10 I. Adagio (13:54)
11 II. Toccata Variata (11:26)
Miserae (Symphonic Poem For Orchestra)
12 Largo ‒ Allegro Agitato E Vivace (13:15)

Thomas Zehetmair – Violin Concerts
Alban Berg
Violin Concerto: “Dem Andenken Eines Engels” / “To The Memory Of An Angel” / “À La Mémoire D’Un Ange”
1 I. Andante (4:33)
2 II. Allegretto (6:22)
3 III. Allegro (7:59)
4 IV. Adagio (9:13)

5 Leoš Janáček
Violin Concerto: “Putování Dušičky” / “Pilgrimage Of The Soul” / “Pilgerfahrt Der Seele” / “Pèlerinage De L’Âme” (11:46)
Arranged By [Reconstruction] – Leoš Faltus, Miloš Štědroň – Composed By – Leoš Janáček

Karl Amadeus Hartmann
Concerto Funebre For Violin Solo And String Orchestra
6 I. Introduction: Largo (1:40)
7 II. Adagio (6:24)
8 III. Allegro Di Molto (7:42)
9 IV. Choral: Langsamer Marsch (3:47)


  • Publicação: Jornal da Tarde (São Paulo / SP – Brasil)
  • Data: Quarta-feira, 19 de janeiro de 2000
  • Título: A música de um incomum homem comum

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