Schnittke, entre a vida e a morte

Compositor russo Alfred Schnittke escreveu durante morte clínica causada
por derrame cerebral

 

O compositor russo Alfred Schnittke (1934-1998) foi uma das maiores e mais trágicas figuras da música russa posterior ao brilho de Dmitri Shostakovich (1906-1975). Duas obras suas bastante contrastantes – “(Nenh)um sonho de uma noite de verão” e “Concerto para Violoncelo n.º 2” – aparecem agora através do selo inglês Chandos. Aí a Orquestra do Estado Russo é regida por Valeri Polyansky, tendo Alexander Ivashkin nas partes de cello.

A formação de Schnittke se deu durante a ditadura soviética. Inconformista, ele escrevia dois tipos de música: uma para ganhar a vida (compôs mais de 60 trilhas para o cinema), outra para perscrutar o sentido da existência. Esta última parcela de sua criatividade só pode ser ouvida durante o processo de dissolução do estado soviético.

Na juventude, Schnittke compôs dois tipos de música contestatária: religiosa e dodecafônica. Na maturidade, chegou a uma estética poliestilística, na qual concebeu algumas de suas partituras mais impactantes no que elas possuem de polifonia feita à base de estéticas musicais diferentes. No final de sua vida, passada em Hamburgo, na Alemanha, voltou-se para uma espécie de abissal expressionismo.

A última obra verdadeiramente alegre de Schnittke é “(K)ein Sommernacht-straum” – “(Nenh)um sonho de uma noite de verão” –, de 1985. É um rondó de dez minutos que tem, como refrão, uma “memória” inventada, um tema que o violino da última fila toca acompanhado por um piano, que lembra tanto Mozart quanto Schubert. Os episódios contrastantes do rondó são explosões da orquestra toda, que ora soa como música de vanguarda, ora exibe a vulgaridade da música militar, à maneira de Mahler.

O músico posterior a essa obra foi um homem marcado por um primeiro de uma longa série de derrames cerebrais, o último dos quais o mataria. A música que ele passou a escrever a partir da experiência de ter tido morte clínica reflete essa situação-limite. É feita de construções que se destroem, de um clima baixo-astral eventualmente apontando para uma esperança passageira.

O “Concerto para Violoncelo n.º 2”, de 1990, faz parte dessa final e terrivelmente angustiada fase da produção de Schnittke. Estruturado em cinco movimentos, esse concerto lembra uma sinfonia com um violoncelo principal. O indivíduo-solista tem um “duplo”, geralmente um contrabaixo solo. E ele estabelece com a orquestra situações sonoras que vão da concordância ao total desacordo. Caos, entropia, vida e morte são os motivos centrais dessa obra que se pergunta: “Ainda é possível criar?”.


  • Publicação: Jornal da Tarde (São Paulo / SP – Brasil)
  • Data: Segunda-feira, 24 de janeiro de 2000
  • Título: Schnittke, entre a vida e a morte

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