A juventude permanente de Bach

Rosalyn executa as ‘Variações’ como uma prece transcendental

A veteraníssima pianista e cravista americana Rosalyn Tureck nos oferece, uma vez mais, a sua versão das monumentais Variações Goldberg de Johann Sebastian Bach. Ela tinha admiráveis 85 anos quando as gravou, ano passado, para o selo Deutsche Grammophon, dando-nos através delas duas lições: uma de arte, outra de vida.
A tradição nos ensina que as Variações Goldberg foram escritas a pedido de um cravista aluno do compositor. Seu objetivo era o de entreter o patrão do instrumentista, embaixador aposentado, durante longas noites de insônia. Foram publicadas em 1742. Hoje, no mercado internacional, há mais de 50 gravações dessa partitura.
O mínimo que se pode dizer dessas variações é que elas erigem-se em arquitetura gloriosa, sem paralelos na história da música. Partindo de uma pequena ária em sol maior, Bach toma o seu contexto harmônico e realiza 30 variações sobre ele. Danças, cânones, fugas e tocatas animam continuamente o discurso, que soa como um mágico e transparente labirinto. Ao fim das variações, Bach faz ouvir de novo a ária do início, mas como disse miss Tureck, “o retorno não é uma repetição, é uma volta à fonte”.
Nascida em Chicago, EUA, em dezembro de 1914, Rosalyn Tureck foi criança-prodígio de memória descomunal. Formou seu amplo repertório tocando a produção fundamental do Classicismo, do Romantismo e da Modernidade. Mas seu nome acabou sendo sempre ligado a Bach, compositor que descobriu ainda menina. Dona de formação humanista requintada, ela também se voltou para a pesquisa musicológica, trabalhando sobre manuscrito e primeiras edições.
Rosalyn Tureck viajou pelo mundo dando aulas e recitais. Debutou com orquestra aos 22 anos (o Concerto em Si bemol de Brahms). E em Londres, certa vez, causou sensação com um recital assim organizado: 1.ª parte – Variações Goldberg, ao cravo; intervalo para o jantar; 2.ª parte – Variações Goldberg, ao piano. E é com este último instrumento que ela nos dá agora a sua quarta ou quinta versão gravada, que já bate um recorde – a de maior duração da história do disco: 91 minutos. (A versão de Glenn Gould, de 1955, dura menos que 40 minutos.)
Como uma monja tibetana, ela executa as Goldberg como uma prece transcendental. Há momentos em que se fica sem saber direito se se está ouvindo ou sonhando. Mas o computador pode nos trazer de volta à realidade, proporcionando o acompanhamento visual da leitura dessa partitura absolutamente única.

Track List

CD 1: Bach, J.S.: Goldberg Variations
Johann Sebastian Bach (1685 – 1750)
Goldberg Variations, BWV 988
1. Aria 4:43
2. Var. 1 a 1 Clav. 2:46
3. Var. 2 a 1 Clav. 2:14
4. Var. 3 Canone all’Unisono a 1 Clav. 2:40
5. Var. 4 a 1 Clav. 1:30
6. Var. 5 a 1 ovvero 2 Clav. 2:09
7. Var. 6 Canone alla Seconda a 1 Clav. 2:04
8. Var. 7 a 1 ovvero 2 Clav. 2:04
9. Var. 8 a 2 Clav. 2:31
10. Var. 9 Canone alla Terza a 1 Clav. 2:27
11. Var. 10 Fughetta a 1 Clav. 2:13
12. Var. 11 a 2 Clav. 2:53
13. Var. 12 Canone alla Quarta 3:55
14. Var. 13 a 2 Clav. 3:41
15. Var. 14 a 2 Clav. 2:33
16. Var. 15 Canone alla Quinta in moto contrario 4:54

Total Playing Time 45:17

CD 2: Bach, J.S.: Goldberg Variations
Johann Sebastian Bach (1685 – 1750)
Goldberg Variations, BWV 988
17. Var. 16 Ouverture a 1 Clav. 3:15
18. Var. 17 a 2 Clav. 2:49
19. Var. 18 Canone alla Sesta a 1 Clav. 1:49
20. Var. 19 a 1 Clav. 1:35
21. Var. 20 a 2 Clav. 2:26
22. Var. 21 Canone alla Settima 2:54
23. Var. 22 Alla breve a 1 Clav. 2:09
24. Var. 23 a 2 Clav. 2:42
25. Var. 24 Canone all’Ottava a 1 Clav. 3:41
26. Var. 25 a 2 Clav. 7:22
27. Var. 26 a 2 Clav. 2:31
28. Var. 27 Canone alla Nona 2:40
29. Var. 28 a 2 Clav. 2:53
30. Var. 29 a 1 ovvero 2 Clav. 2:05
31. Var. 30 Quodlibet a 1 Clav. 2:07
32. Aria 2:55

Total Playing Time 45:53


  • Publicação: Jornal da Tarde (São Paulo / SP – Brasil)
  • Data: Sexta-feira, 21 de janeiro de 2000
  • Título: A juventude permanente de Bach

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