Rachmaninov ao piano, contra a banalização

CD com o compositor tocando concertos e uma rapsódia permite entender por
que ele foi tão imitado em Hollywood. “Um metro e noventa de melancolia russa” foi assim que Igor Stravinsky, costumeiramente irônico no que tange às suas antipatias, definiu a personalidade artística do seu compatriota Serguêi Rachmaninov (1873-1943).
A escuta dos célebres quatro Concertos para Piano deste último compositor, mais a da sua Rapsódia sobre um Tema de Paganini, na execução do próprio autor, pode levar a conclusões mais nuançadas que aquela do criador de A Sagração da Primavera.
Colega de classe de outro artista espetacular, Alexander Scriabin, Rachmaninov abandonou a Rússia por causa da revolução bolchevique, em 1917. Nunca voltou à sua pátria e teve até mesmo sua música proibida ali, durante algum tempo. Também jamais deixou de se sentir russo e exilado, além de profundamente romântico e musicalmente conservador. Observou sem interesse as revoluções musicais que aconteceram à sua volta, mantendo-se fiel ao seu
estilo pós-tchaikovskiano.
O Rachmaninov dos Concertos para Piano e da Rapsódia é o músico que privilegia as melodias de longo alento, em geral memoráveis a uma primeira audição e muito cativantes. É também o explorador da técnica “transcendental”, que coloca suas partituras a salvo das mãos amadoras. Seu peculiar estilo, de fazer com que impactantes linhas melódicas brotassem da matéria sonora, foi muito imitado pelos compositores de trilhas sonoras para os filmes de Hollywood, daí a sua banalização. Mas essa retórica “cinematográfica” ganha um novo frescor quando se vai ouvir o próprio Rachmaninov ao piano. Como se sabe, além de compositor e regente, ele ganhou a vida no Ocidente como pianista de grandes recursos técnico-expressivos. Flagrá-lo executando suas próprias obras será, para muitos, uma autêntica revelação. Antes de mais nada, ele toca a sua música com invejável naturalidade, fazendo-a soar necessária. Depois, ele não parece se exibir em efeitos de pirotecnia. Ao contrário: faz-nos esquecer da extraordinária dificuldade de execução dessas obras, acentuando o seu aspecto de enxurrada expressiva.
Serguêi Rachmaninoff gravou os seus quatro Concertos e a Rapsódia entre 1929 e 1941, diante da Orquestra de Filadélfia. Teve como regentes nesses testemunhos ora Leopold Stokowksi, ora Eugene Ormandy. Distribuídas inicialmente pela RCA, agora essas gravações estão disponíveis em edição da Naxos Historical. Esses registros comunicam uma autenticidade que é preciso conhecer, sorver e deliciar-se com ela.



  • Publicação: Jornal da Tarde (São Paulo / SP – Brasil)
  • Data: Quarta-feira, 12 de janeiro de 2000
  • Título: Rachmaninov ao piano, contra a banalização

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