Um cravo com bastante gingado

O novo CD do cravista alemão Andreas Staier traz um panorama da música espanhola do século 18

Variaciones del Fandango Español é o título do novo disco do cravista alemão Andreas Staier (CD do selo Teldec, da Warner, importado). Aí, um requebrar de dar inveja a bailarinos coloca em realce um interessante panorama da música espanhola do século 18, indo do Padre Soler a Luigi Boccherini, sempre com muita graça, muito donaire.
O Fandango provocou uma verdadeira febre musical na segunda metade do século 18. Saindo da música popular – onde, sem se tocar, um par de bailarinos transformava em gestos coreográficos o ato sexual –, o Fandango logo ganhou a simpatia dos mestres eruditos da Península. E seu ritmo foi empregado até mesmo por alemães e austríacos como o Gluck do balé Don Juan e o Mozart da ópera As Bodas de Fígaro.
As origens do Fandango são um tanto misteriosas. Para alguns, ele teria nascido de uma mistura de seguidilha andaluza e do fado português. Mas há quem encontre nessa dança ecos mouriscos e até mesmo sul-americanos. Seja como for, é uma dança sincopada, usualmente em ritmo ternário ou binário composto, caracterizada por acelerações e súbitas pausas. Na versão popular, as castanholas não se cansam de repicar seu ritmo febril. (No Brasil, o termo “fandango” designa, de São Paulo ao Rio Grande do Sul, a “chula” velha dança que nos chegou de Portugal, no século 16).
Na música erudita, há muitos exemplos de Fandango. O excelente Andreas Staier, 44 anos, reuniu três deles para balizar seu recital. Assim, seu disco tem início com o Fandango do Padre Antonio Soler (1729-1783) e, depois de quatro obras de autoria de Sebastián de Albero e Josep Gallés, introduz o ouvinte às Variaciones del Fandango Español de Félix Máximo López (1742-1821). Seguem-se mais algumas partituras atribuídas a Albero e a José Ferrer. O encerramento do CD se dá de maneira deliciosa com uma adaptação do Fandango do Quinteto IV em Ré maior, G 448 de Luigi Boccherini (1743-1805).
Auxiliado pela também cravista Christine Schornsheim, e pelas castanholas de Adela Gonzáles Cámpa, Staier dá-nos aí uma lição de humor, de inventividade e de vigor musical.
Uma curiosidade: a personalidade musical mais em evidência na Espanha da época foi Domenico Scarlatti (1685-1757), ausente dessa antologia. Apesar de ter sido o autor de 555 Sonatas para cravo e também de um Fandango, ele aqui foi deixado de lado porque Andreas Staier queria provar que, apesar de ter sido o maior, outros músicos peninsulares da época também têm valor. Algo que ele conseguiu demonstrar muito bem.


  • Publicação: Jornal da Tarde (São Paulo / SP – Brasil)
  • Data: Quinta-feira, 06 janeiro de 2000
  • Título: Um cravo com bastante gingado

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