Cecília Bartoli canta obras do barroco Vivaldi

No novo CD, ‘The Vivaldi Álbum’, a meio-soprano interpreta dez óperas do Padre Ruivo de Veneza

A meio-soprano italiana Cecília Bartoli, no auge do controle dos seus decantados predicados vocais, está com disco novo na praça – The Vivaldi Álbum (selo Decca, importado). Acompanhada pelo requintado conjunto Il Giardino Armônico, liderado por Giovanni Antonini e pelo excelente Coro Arnold Schoenberg, ela cintila em treze árias pertencentes a dez óperas do hoje novamente célebre Padre Ruivo de Veneza.
Nascida em Roma há 33 anos, Cecília Bartoli é, efetivamente, um espantoso fenômeno vocal. Tem pouco volume na garganta, assim, sua voz é chamada de “pequena”. Por isso, se apresenta mais em recitais em salas pequenas e grava mais discos do que enfrenta as montagens pesadas das grandes casas de ópera. Em contrapartida, a beleza do seu timbre, a elegância do seu fraseado, a limpidez e a imaginação das suas ornamentações fazem dela uma estrela de calibre, adorada pelo público e pela crítica.
Dois anos atrás, signorina Bartoli deu três recitais aqui em São Paulo, para os assinantes da Sociedade de Cultura Artística. Poucos foram os que não ficaram impressionados com a sua simpatia em cena e com a musicalidade perfeita daquilo que ela cantou. O músico sempre muito exigente Gilberto Tinetti declarou, ao fim de um desses espetáculos: “Ao vivo, jamais ouvi colloraturas tão incríveis pela dificuldade serem realizadas com tal perfeição”.
No Álbum Vivaldi, ela se entrega às pirotécnicas ornamentações barrocas de forma tão natural que parece estar brincando. Toda essa música de realização complicadíssima é de tirar o fôlego. E a moça aí triunfa lindamente.
Como se sabe, o veneziano Antonio Vivaldi (1678-1741) escreveu 46 óperas – número relativamente pequeno para ele que, no plano do concerto, deixou cerca de 500 exemplares. Esquecidas desde a primeira metade do século 18, essas óperas voltam à cena europeia neste final de século 20. Nelas, encontram-se combinadas a rica herança barroca de Veneza e a inspiração melódica do tipo napolitano, farta em ornamentações. O virtuosismo, tanto vocal quanto instrumental da música operística vivaldiana, exerce forte atração sobre o ouvinte.
Cecília Bartoli encontrou o material na Biblioteca Nacional de Turim, onde há muitos manuscritos das óperas de Vivaldi. Selecionou ali árias para seu timbre de mezzo soprano colloratura nas óperas Dorilla inTempe, Griselda, Foà, L’Orlando finto pazzo, La fida ninfa, Giustino, L’Olimpiade, Farnace, Bajazet e Teuzzone. Quem conhece as Quatro Estações do Padre Ruivo ficará encantado de ver o tema inicial de A Primavera ser cantado alegremente pela solista e pelo coro.

 


  • Publicação: Jornal da Tarde (São Paulo / SP – Brasil)
  • Data: Sábado, 08 de janeiro de 2000
  • Título: Cecília Bartoli canta obras do barroco Vivaldi

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