A velha música do futuro está de volta

Concertos para Piano e Orquestra, do húngaro Franz Liszt, voltam em gravação feita na República Checa

Anunciada em meio ao século passado como sendo “a música do futuro”, a obra para piano e orquestra do húngaro cosmopolita Franz Liszt (1881-1886) volta à tona neste final de século. Aí estão, muito bem executados, os seus dois Concertos para Piano e Orquestra mais a Totentanz (Dança da Morte) em gravação feita na República Checa com o pianista Joseph Banowetz diante da Orquestra de Bratislava, sob a regência de Oliver Dohnány (CD da Naxos, em edição nacional).
Além de compositor fertilíssimo, Liszt foi, entre outras coisas, um generoso divulgador da obra de seus contemporâneos. Também transcreveu para o piano obras do repertório que, àquela época, eram difíceis de se ouvir ao vivo, como as Sinfonias de Beethoven.
É costume dizer que Liszt escrevia tendo em vista vários públicos. Destinava suas obras mais pirotécnicas e cheias de efeito às primeiras filas de seus auditórios, integrados por beldades que desmaiavam à sua bela presença e à sua capacidade de transformar o piano em orquestra. Outras obras, imbuídas de filosofia ou de lições de vida, visavam a parcela do público mais esclarecido. E, enfim, suas obras radicais, de vanguarda eram feitas para mostrar aos seus colegas músicos que ele não era um qualquer.
Totentanz, uma série de diabólicas variações sobre o hino fúnebre medieval “Dies irae”, integra a estética romântica que encontrava um mórbido prazer em trazer à tona os pesadelos de uma Idade Média mística e pavorosa. E a obra soa bem assim, como uma cintilante evocação “moderna” de um passado mais ideal do que provável.
Já os dois Concertos para Piano e Orquestra são, ainda que tenham se tornado tão populares, obras visionárias, “futuristas”. Além do solista que deve enfrentar “dificuldades transcendentais de execução”, tem-se aí a presença de uma orquestra que, às vezes, soa como um pequeno conjunto de câmara. Mas o mais espantoso de tudo é a maneira como Liszt engendra o seu discurso, em um percurso repleto de acontecimentos inesperados. E que, magicamente, por mais estranhos que soem, são consequências lógicas de deduções efetuadas a partir de algumas poucas ideias-chave.
A limpidez e a consciência crítica do pianista Joseph Banowetz fazem deste disco algo de bem recomendável.

Tracklist

Piano Concerto No.1 In E Flat
1. Allegro Maestoso. Tempo Giusto 5:13
2. Quasi Adagio 5:10
3. Allegretto Vivace 4:07
4. Allegro Marziale Animato 4:21

Piano Concerto No.2 In A
5. Adagio Sostenuto Assai 7:55
6. Allegro Moderato 8:47
7. Marziale, Un Poco Meno Allegro 4:04
8. Allegro Animato 1:48

9. Totentanz 16:14



  • Publicação: Jornal da Tarde (São Paulo / SP – Brasil)
  • Data:Segunda-feira, 10 de janeiro de 2000
  • Título: A velha música do futuro está de volta

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