Brasil e Portugal dialogam na música

Estão chegando às lojas, esta semana, os dois primeiros compact discs da série História da Música Brasileira, distribuídos pelo Selo Eldorado. Ambos são dedicados à nossa produção musical do Brasil Colônia. Assim, incluem desde algumas das primeiras partituras clássicas escritas no País, por portugueses e brasileiros, até essa culminação que foi o padre José

Maurício, certamente o nosso maior compositor anterior à aparição de Villa-Lobos.

A partir da pesquisa musicológica realizada pelo muito competente Paulo Castagna e aceitando sugestões dele, o maestro e flautista Ricardo Kanji estabeleceu um repertório a um só tempo saboroso e representativo.

Executou-o com Orquestra e Coro Vox Brasiliensis, agrupamento vocal-instrumental de sua invenção.

Sem barroco

O ponto alto dos dois discos é, sem dúvida, o repertório. Por um prisma, as obras escolhidas apontam para o diálogo existente entre a música brasileira e a portuguesa e, por meio desta, para a influência que recebemos da produção italiana da época. Graças a essa aproximação, é possível dar-se conta de que, no Brasil, não houve propriamente barroco, mas sim pré-classicismo e classicismo em nossos primórdios eruditos.

Centros musicais

Por outro prisma, o repertório coloca em evidência os principais e sucessivos centros de produção musical – Bahia, Pernambuco, Minas, São Paulo e Rio de Janeiro –, salientando as duas eclosões máximas da nossa música do período colonial: a farta e bela criatividade dos músicos mineiros e o aparecimento de um gênio efetivo, José Maurício Nunes Garcia (1767-1844), que floresceu no Rio.

E há mais: as canções anônimas e o delicioso lundu recolhidos aqui por C.P.F. von Martius, o também anônimo vilancico para o Natal: Matais de Incêndios, dono de muita graça, e a inacreditável Marinículas, de autor anônimo do século 17, com hilariante texto de Gregório de Matos publicado em Portugal em 1668. E, muito evidentemente, aí também estão várias das partituras mais interessantes atribuídas a alguns dos principais compositores mineiros, entre os quais Lobo de Mesquita e Manoel Dias de Oliveira.

Especialmente bem resolvida está a parte instrumental dos dois discos. O maestro Kanji concebeu andamentos, fraseados e balanço sonoro com grande pertinência e elegância. Entretanto, há algo que incomoda bastante nas duas gravações: as vozes. Há uma evidente defasagem entre as partes instrumentais, entregues a profissionais, e as partes vocais nitidamente amadoras e/ou estudantis. Como coro, a grupação vocal não funciona bem, já que heteróclita. Quando alguns de seus integrantes são destacados para funcionar como solistas, eles ficam muito aquém do desejado. E, além de problemas de unanimidade e de fraseado, cada integrante do coro pronuncia o texto como quer, o que resulta em um efeito bastante desagradável. Neste sentido, o coro consegue apenas apontar para o precário estado em que se encontra a nossa educação de vozes neste fim de milênio.

Volume 1
Anônimo (séc. XVIII) – Asperges me / Domine hyssopo
Inácio Parreiras Neves (c.1730-c.1791) – Antífona de Nossa Senhora
Manoel Dias de Oliveira (c.1735-1813) – Encomendação de almas
José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita? (1746?-1805) – Ego enim accepi a Domino
Francisco Gomes da Rocha (c.1754-1808) – Novena de Nossa Senhora do Pilar
José Alves [Mosca?] (séc. XVIII) – Donec ponam
André da Silva Gomes (1752-1844) – Veni Sancte Spiritus
José Maurício Nunes Garcia (1767-1830) – Tota pulchra es Maria; Dies sanctificatus; Justus cum ceciderit (Moderato)
Anônimo (Francisco Martins? c.1620-1680) – Pueri Hebræorum
Manuel Cardoso (1566-1659) – Ex tractatu Sancti Augustini
Anônimo (Manoel Dias de Oliveira?) – Bajulans
Manoel Dias de Oliveira? (c.1735-1813) – Surrexit Dominus
Luís Álvares Pinto (c.1713-c.1789) – Divertimentos harmônicos
Anônimo (início do séc. XVIII) – Matais de incêndios

Volume 2
Anônimo (início do séc. XIX) – Lundu
Anônimo (séc. XVII) – Marinículas
Marcos Portugal (1762-1830) – Você trata amor em brinco
Anônimos – Canções recolhidas no Brasil por C.P.F. von Martius (entre 1817-1820)
Marcos Portugal? – Marília de Dirceu: Ah! Marília, que tormento (Ária VIII)
José Maurício Nunes Garcia (1767-1830) – Beijo a mão que me condena
Anônimo (1759) – Herói, egrégio, douto, peregrino (Cantata Acadêmica)
José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita (1746?-1805) – Bênção das Cinzas e Missa para a Quarta-feira de Cinzas
Luís Álvares Pinto (c.1713-c.1789) – Lições de solfejos XX, XIX, XXII, XXIII e XXIV
José Maurício Nunes Garcia (1767-1830) – Lições de pianoforte I-XII e II-V; Abertura em Ré; Abertura Zemira


 

  • Publicação: Jornal da Tarde (São Paulo / SP – Brasil)
  • Data: Terça-feira, 09 de fevereiro de 1999
  • Título: Brasil e Portugal dialogam na música

 

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