Obras de Prokofiev e Sarasate no CD do violinista Davi Graton.

O trabalho do violinista Davi Graton, paulista de 23 anos, é simultaneamente sério, vivo e enredante. Graças a essas e outras qualidades, ele foi o ganhador indiscutível do IX Prêmio Eldorado de Música, realizado no ano passado. Como parte da premiação, pôde gravar o seu disco de estreia.Acompanhado pela pianista Scheilla Glaser, ele executa nesse CD do Estúdio Eldorado obras de Santoro, Villa-Lobos, Prokofiev e Sarasate.

Nascido aqui em São Paulo (20/06/1975), Davi Graton teve suas primeiras aulas com a própria mãe, professora de música. Ainda menino, passou a tocar violino em uma orquestra de igreja. Aos 9 anos, apresentou-se ao grande mestre Yoshitame Fukuda que, dois anos depois, “legou-o” à sua filha, a respeitável professora e violinista Elisa Fukuda. Davi continua a ter uma verdadeira veneração pela mestra.

Logo depois de ter vencido o principal concurso brasileiro em seu gênero, Davi declarou ao JT: “Para ser solista, acho que preciso continuar a fazer o que faço, que é estudar pra burro e fazer apresentações de qualidade. No momento, estou vivendo algo muito especial, porque ganhei o PEM. Ele veio na hora certa e estou seguro de que vai ajudar a divulgar o meu trabalho”.

E aí está o seu belo CD de estreia, que tem tudo para auxiliá-lo nisso. Executa a Quarta Sonata do amazonense Cláudio Santoro, aliando lirismo e impulso rítmico. Já na Primeira Sonata-Fantasia – Desespérance, de Villa-Lobos, demonstra muito do seu temperamento romântico. Na obra musicalmente mais substanciosa do disco – a Sonata Opus 94b, do russo Serguei Prokofiev – revela ter uma intuição poderosa, capaz de articular o discurso com lucidez. Como “brinde pirotécnico”, não poderiam soar mais convincentes as Zigeunerweisen, de Sarasate.

 

Vencedor do IX Prêmio Eldorado de Música – Texto do CD

Davi Graton Vitória indiscutível. Foi o que alcançou o violinista Davi Graton na finalíssima do IX Prêmio Eldorado de Música, na noite de 10 de dezembro de 1997. Aos 22 anos, executando o movimento inicial do Concerto para Violino de Brahms, acompanhado pela Sinfônica de Campinas regida por Benito Juarez, ele se impôs por completo diante do público e do júri presente à Sala Esther Mesquita do Teatro de Cultura Artística. Isso graças a seu grande e mais do que evidente talento, ao apuro equilibrado de sua técnica e à sua notável maturidade artística.

Na nona edição desse Prêmio, que é o mais importante do Brasil em seu gênero, dessa vez patrocinado por Bank Boston, General Motors do Brasil e Print Lexmark, Davi Graton concorreu com outros vinte e três candidatos muito talentosos. Passou por duas provas com a mesma segurança com que se exibiu na finalíssima, quando arrebatou a primeira colocação. O certame flagrou-o em um momento importante do seu trabalho, que, com a nova láurea, toma agora um novo impulso. Diria ele ao Jornal da Tarde, em janeiro de 1998: “Para ser solista, acho que preciso continuar a fazer o que faço, que é estudar pra burro e fazer apresentações de boa qualidade. No momento, estou vivendo algo muito especial porque ganhei o Prêmio Eldorado de Música. Ele veio na hora certa e estou seguro de que vai ajudar a divulgar o meu trabalho”.

Davi Graton nasceu em São Paulo (20/06/1975) e, filho de uma professora de música, começou a tocar violino ainda menino, em orquestra da igreja da Congregação Cristã do Brasil. Aos 9 anos, apresentou-se ao mestre Yoshitame Fukuda, que o aceitou como aluno. Dois anos depois, passou a trabalhar com a filha do maestro, Elisa Fukuda, de quem é aluno e admirador desde então. Violino principal de várias orquestras (spalla), ele vem ganhando prêmios, o carinho dos colegas e o aplauso do público. Quando o Jornal da Tarde lhe perguntou quais seus ídolos, quais os artistas que o inspiraram, respondeu de pronto: “Antes de tudo, a minha professora, Elisa Fukuda. E, em termos internacionais, Christian Feras e Gil Shahan. O calor humano, a perfeição técnica e a entrega pessoal são algumas das qualidades desses artistas que me inspiraram”. Sem dúvida, essas mesmas qualidades se encontram em seu próprio trabalho. (Nessa sua gravação de estreias, parte integrante da premiação PEM, Davi Graton é acompanhado pela pianista Scheilla Glaser, que, formada pelo Instituto de Artes da UNESP, em 1985 e tendo estudado com José Antonio Bezzan, Attilio Mastrogiovanne e Fernando Lopes, atualmente é orientada por Marina Brandão. Também se dedica à pedagogia desde 1983 além de apresentar-se como recitalista e camerista).

Compositores & Obras

Cláudio Santoro (1919 -1989), amazonense de Manaus, encontra-se entre os mais inquietos e criativos artistas da sua geração. Incluindo sinfonias, óperas, concertos, bal’s, cantatas e música de câmera, sua produção revela uma personalidade forte e invulgar. Utilizou várias técnicas e estéticas – dodecafonismo, nacionalismo, experimentação vanguardista, entre outras, deixando em tudo o que concebeu o timbre de generosa inventividade. E, igualmente, de inatacável postura ética. A Sonata para Violino e Piano no. 4 (1950) é das suas primeiras partituras com a comunicabilidade da poética musical. Apropriando-se de formas tradicionais, Santoro as renova com a fartura da sua imaginação. Aí, a vivida agitação rítmica e a escritura repleta de achados são coroadas por um melodismo, simultaneamente envolvente e cheio de surpresa.

Heitor Villa-Lobos (1887 – 1959), carioca cosmopolita e aventureiro, foi em música a expressão máxima da multirracial alma brasileira. Deixou obra que, pela extensão e pluralidade de aspectos, lembra o caráter continental, telúrico e ecumênico do Brasil. Autodidata no início, “antropofágico” na maturidade e neoclássico no final da vida, alcançou fama internacional, graças às suas muitas centenas de partituras, frequentemente instigantes e personalíssimas. Continua sendo a figura-chave da história da música erudita brasileira. A Primeira Sonata- Fantasia para violino e piano, “Desespérance” (1913) é expressivo flagrante dos anos iniciais do compositor. Anterior à fase nacionalista, essa partitura em um só movimento traz à tona a aventura turbulenta do artista que rebusca em si mesmo e no universo sonoro à sua volta as bases de uma linguagem verdadeiramente pessoal.

Serguei Prokofiev (1891 – 1952) pertenceu à libertária vanguarda russa de início deste século, que, posteriormente, sob a ditadura de Stálin, viu-se na contingência de escrever música segundo as normas da política oficial soviética. Salvou-o do artesanato meramente burocrático um indiscutível talento, capaz de lançar pontes entre o romantismo e a modernidade e de chegar a sínteses poderosamente pessoais a partir de estéticas variadas. A Segunda Sonata para Violino e Piano em ré maior, Opus 94b, é uma feliz transcrição da obra originalmente escrita para flauta, em 1942-43. De recorte clássico, repleta de uma invenção melódica que só poderia mesmo ter saído da imaginação de Prokofiev, essa partitura em quatro movimentos é tão perfeitamente violinística que é difícil de acreditar ter sido pensada, de início, para outro instrumento.

Pablo de Serasate (1844 – 1908), espanhol de Pamplona, foi criança-prodígio que se formou com brilho em Madri e Paris, antes de se lançar em rutilante carreira internacional de violinista. Considerado um dos maiores virtuoses de sua época, era admirado pela sonoridade doce e pura que extraía de seus dois Stradivari prediletos. Vários compositores entre os quais Bruch, Saint-Saëns, Lalo e Wieniawski, dedicaram-lhe obras e ele mesmo escreveu várias partituras para seu instrumento. Muitas delas continuam a fazer parte do repertório dos violinistas de nosso tempo. Este é o caso de “Zigeunerweisen, op.20”, de 1878, rapsódia sobre melodia de caráter cigano que, partindo de um tema lírico e enredante, alcança o seu clímax em um belo turbilhão de dificuldades técnicas entregues ao solista.

davi graton

 

 

 

 

 


 

  • Publicação: Jornal da Tarde (São Paulo / SP – Brasil)
  • Data: Terça-feira,  29 de setembro de 1998
  • Título: Obras de Prokofiev e Sarasate no CD do violinista Davi Graton.
  • Autor: J.Jota de Moraes

 

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