Erik Satie, o mais excêntrico dos músicos.

 

O francês Erik Satie (1866 – 1925) foi possivelmente o mais excêntrico dos músicos da História da Música do Ocidente. Sua obra, destinada sobretudo ao piano, vai de peças místicas a marchas e valsas de cabaré. E mais: se nos seus inícios prefigurou as harmonias evanescentes de seus contemporâneos Debussy e Ravel, na maturidade foi transformado no papa da nova e demolidora estética entre neoclássica e dadaísta apregoada pelo poeta multimídia Jean Cocteau. E se sua roupa era sempre a mesma, um terninho escuro de veludo, sua música mudou de aspecto muitas vezes, de maneira com frequência surpreendente.

Satie levou a maior parte de sua vida ora sendo considerado “um animal pré-histórico” da Modernidade, ora visto como um compositor dono de ideias originais, mas sem uma boa base de formação técnica. Só alcançou alguma notoriedade quando foi “redescoberto” pelas gerações mais novas.

A maioria de sua biografia melancólica foi passada em um subúrbio de Paris, Arcueil, onde morava pobremente. Para sobreviver, teve de ser pianista de cabaré, sendo assim impedido de participar do “grande mundo oficial” no qual reinavam os músicos clássicos franceses considerados como “sérios”.

O aspecto mais conhecido da obra de Satie continua sendo, naturalmente, o pianístico. Por isso, o novo disco da etiqueta francesa Erato intitulado ‘A Orquestra de Satie’ pode vir a ser uma gostosa surpresa para muito aficionado de mente aberta. Nele, o regente japonês Yutaka Sado, diante da centenária e hoje afinada Orchestre des Concerts Lamoureux, realiza um panorama da música orquestral e/ou orquestrada do compositor, sempre com cativante verve.

O aspecto “místico” do Satie inicial, o das ‘Gymnopédies’, dos ‘Prelúdios’ e das ‘Gnossiènnes’ escritas durante a década de 1890 é representado por orquestrações realizadas por Debussy e Poulenc. Tem-se aí instrumentações refinadas e pseudogregas que dão um encanto extra a essas peças que nasceram simultaneamente modernas e arcaicas. O lado “cabaret” do compositor – o do “intermezzo americano” intitulado ‘A Diva do Empire’ e das valsas ‘Eu te desejo’ e ‘Pó de Ouro’ – é mostrado através de orquestrações destinadas às bem francesas “orchestres de brasserie”, bandinhas bem assanhadas e com um arzinho de coreto.

A procurada banalidade e o clima circense da fase vanguardista de Satie são muito bem exibidos em ‘Parade’, subintitulado “balé realista” sobre um tema de Jean Cocteau, onde são ouvidos, em meio aos instrumentos “normais” da orquestra, sons de sirene, de máquinas de escrever e estampidos de armas de fogo. Essa mesma fisionomia de “music hall” está presente na bastante engraçada “fantasia séria para dançar” batizada de ‘A Bela Excêntrica’ e nas minidanças da peça ‘A Armadilha de Medusa’, com a qual o artista inaugurou o conhecido teatro do absurdo.

No final de sua vida, Satie criou um novo gênero, o da chamada “música de mobiliário”. Era destinada à decoração de ambientes e a integrar determinadas comemorações. Constava de um ou dois minutos de música escrita que deveria ser repetida indefinidamente, funcionando como uma espécie de papel de parede sonoro. ‘Um Salão’ e ‘Em um bistrô’, muito curiosas, estão presentes nesse disco de audição bastante prazerosa.

lorchestre de satie

 

 

 

 

 


 

  • Publicação: Jornal da Tarde (São Paulo / SP – Brasil)
  • Data: Sexta-feira, 11 de janeiro de 2002.
  • Título: Erik Satie, o mais excêntrico dos músicos.
  • Autor: J.Jota de Moraes

 

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