A história da música e suas formas – Pós-Romantismo

A história da Música Erudita do Ocidente é muito rica, fruto de mais de mil e quinhentos anos de atividade intensa e jamais interrompida. Percorrer este panorama é fazer uma espécie de viagem sonora repleta de informações e de emoções únicas. Essa aventura leva-nos dos mosteiros da Idade Média aos estúdios e laboratórios da atualidade. Carrega-nos das austeras composições musicais escritas anonimamente por monges em seus refúgios aos complexos processos de invenção de hoje, às vezes criados até mesmo por computadores.

Essa música acompanha e valoriza a História da Cultura do Homem Ocidental, concretizando suas muitas e mutáveis maneiras de sentir e de pensar. Através dela, os artistas de todos os tempos extravasaram suas fantasias e sonhos, fizeram depoimentos, simbolizaram os seus contatos com Deus, deixaram retratos do momento em que viveram. Através dessa música, muitas vezes esses artistas construíram labirintos cheios de enigmas só compreendidos bem mais tarde.

A História da Música Erudita Ocidental é única, inteiramente diferente das de outras civilizações. Desde os seus inícios – e ela começou com a cristianização da Europa – demonstrou ser uma atividade bastante intelectualizada, pensada. Até esse momento, praticamente toda a música inventada pelo Homem era mais ou menos improvisada e baseava-se na tradição oral, passada de geração a geração através do contato social entre indivíduos de uma mesma coletividade.

Com o Cristianismo, a música passou também a ser escrita, representada em pergaminho ou papel. Foi, então, a primeira vez que os compositores puderam, além de ouvir a sua própria música, “ver” os sons colocados no papel. Isso mudou tudo.

Antes, a música era uma arte que se dava no tempo: o tempo gasto para se cantar uma canção, para se tocar ou dançar uma dança. No Ocidente, ela ganhou mais uma dimensão – a do espaço.

Anteriormente, ela fluía como corre um rio. Depois, passou também a ser cristalizada sobre o papel, como se o rio tivesse sido fotografado em todos os seus detalhes, deixando ver até mesmo os menores peixes dentro da água. Isso foi de uma importância enorme. Passou-se a pensar que a música poderia ser cantada e tocada sempre da mesma maneira.

E quando alguma coisa não soava bem ou, então alguém desejava inventar alguma novidade, lá estava a partitura, a sua representação gráfica, para auxiliar a imaginação dos compositores. A partir daí, fazer música passou a ser algo muito sério, da responsabilidade de verdadeiros especialistas. Estes criaram leis para organizar e encadear os sons.

A música, assim, transformou-se em uma linguagem.

Pós-Romantismo

No final do século passado (século XIX), grande parte da atividade musical europeia dividia-se em dois blocos opostos: um que encarava Wagner como a essência mesma da música progressista, outro que via em Brahms o expoente máximo da música verdadeiramente digna – clássica, enfim.

Influenciados por Wagner, compositores como Richard Strauss levariam a música até as margens da tonalidade; seguindo o exemplo de Brahms, artistas como Max Reger retornariam às formas antigas, dando início a uma tendência que, mais tarde, consolidar-se-ia no neoclassicismo. Por outro lado, houve uma nova radicalização no sentido de se firmarem linguagens nacionais, contrapondo-se à hegemonia germânica. Albeniz na Espanha, Janaceck na Checoslováquia, Mascagni na Itália e Elgar na Inglaterra foram alguns dos muitos responsáveis pelo ressurgimento do sentimento nacionalista em seus países.

Essa “crise” da música fim-de-século pode ser vista como uma crise da própria linguagem musical. Pois dois dos principais pilares sobre os quais ela assentava-se desde o Barroco – a tonalidade e as formas simétricas – entram aí em processo de dissolução, apontando para seu avesso: o mundo da atonalidade e o das formas abertas, em perpétua expansão. A música desse momento que agora parece-nos mais criativa viveu agudamente tais contradições, explorando-as em obras que, em sua época, muitas vezes tachadas simplesmente de “decadentes”. Na verdade, muitas delas apontam, a um só tempo, para o passado e para o futuro: por um prisma, trazem as marcas de um romantismo assumido até o ponto máximo de saturação; por um outro prisma, já prenunciam certos traços que haveriam de ser alguns dos mais marcantes da Modernidade.

Durante o Pós-Romantismo, assiste-se à exacerbação dos meios expressivos, responsável pelo surgimento de obras desmesuradas como as enormes sinfonias de Gustav Mahler e os gigantescos poemas sinfônicos de Richard Strauss. Essas obras baseavam-se não apenas no alargamento e na deformação consciente dos esquemas formais abordados, como também na ampliação das próprias fontes sonoras colocadas em jogo – orquestras mais para estádios do que para salas de concerto…. Simultaneamente descobriu-se que o timbre, a “cor” do som podia ser encarado como elemento informativo, tomado em pé de igualdade com a própria melodia. Isso fez com que a música passasse a se assemelhar a vitrais (Mahler) e a pinturas pontilhistas (Debussy). E ao lado do ultra refinamento do estilo, levado a cabo por Ravel, presenciou-se ao gradual esfacelamento da tonalidade, presente tanto em Alexander Scriabin quanto no jovem Arnold Schoenberg.

Claude Debussy (1862 – 1918), considerado por alguns um mero “impressionista” que mal sabia alinhavar ideias musicais, foi um desbravador que jamais deixou de olhar, de maneira criativa, para o rico passado do mundo dos sons. Assim, ao lado de obras revolucionárias por suas inovações, escreveu outras nas quais buscou captar a tradição que considerava mais viva. Esse é o caso de Dieu, qu’il a fait bon regarder! do ciclo Três Canções de Charles d’Orleans, de 1898 – 1908. Seu texto bem antigo fala, de forma sempre apaixonada, das belezas de uma mulher. Nessa peça, a harmonia moderna e a escritura vocal arcaica ressuscitam o clima da velha arte do tempo de Janequin.

Richard Strauss (1864 – 1949) viveu de maneira tão intensa o clima « outonal » da música do final do século passado que, até a sua morte, jamais conseguiu desprender-se dele inteiramente. E se boa parte de sua produção exemplifica a tendência ao monumental, outra faceta sua coloca-nos na intimidade de uma personalidade repleta de sutilezas. Sua canção Morgen! (Manhã), sobre versos de Mackay e datada de 1894, é notável pela introversão e pela vontade e fazer com que o piano “cante” tanto quanto a própria voz. Canção que explora ao máximo as possibilidades desse gênero tipicamente germânico, Morgen! É como que um último adeus ao romantismo. Seu texto fala da certeza do reencontro de um par de amantes em meio à natureza ensolarada.


 

  • Concertos do meio-dia – 1983
  • Brinde Promocional: Folheto e disco
  • Textos: J. Jota de Moraes

 

Dieu! qu’il la fait bon regarder

Dieu! qu’il la fait bon regarder
la gracieuse bonne et belle;
pour les grans biens que sont en elle
chascun est prest de la loüer.
Qui se pourroit d’elle lasser?
Tousjours sa beauté renouvelle.
Par de ça, ne de là, la mer
nescay dame ne damoiselle
qui soit en tous bien parfais telle.
C’est ung songe que d’i penser:
Dieu! qu’il la fait bon regarder.

 

(tradução para o inglês)

God, what a vision she is

God, what a vision she is;
one imbued with grace, true and beautiful!
For all the virtues that are hers
everyone is quick to praise her.
Who could tire of her?
Her beauty constantly renews itself;
On neither side of the ocean
do I know any girl or woman
who is in all virtues so perfect;
it’s a dream even to think of her;
God, what a vision she is.

 

Morgen!

Und morgen wird die Sonne wieder scheinen,
und auf dem Wege, den ich gehen werde,
wird uns, die Glücklichen, sie wieder einen
inmitten dieser sonnenatmenden Erde…

 

Und zu dem Strand, dem weiten, wogenblauen,
werden wir still und langsam niedersteigen,
stumm werden wir uns in die Augen schauen,
und auf uns sinkt des Glückes stummes Schweigen…

 

(tradução para o espanhol)

Mañana!

Mañana el sol volverá a brillar;
y por el camino que yo recorreré,
nos reuniremos otra vez nosotros, los bienaventurados,
en el seno de esta tierra que respira la luz del sol . . .

Y a la vasta playa, bañada por olas azules,
bajaremos despacio y silenciosamente,

calladamente nos miraremos a los ojos,
y sobre nosotros descenderá el mudo silencio de la felicidad . . .

2 comentários sobre “A história da música e suas formas – Pós-Romantismo

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